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Torturas para o espetáculo
Por Francesca Colombo

Os animais de circo são maltratados na Itália. Ativistas pedem a proibição de seu uso, mas empresários se negam a atendê-los.

Roma, (Tierramérica).- Ursos bailarinos, focas que brincam com bolas, elefantes parados de ponta-cabeça e tigres ou leões que passam através de aros em chamas são a atração dos circos italianos. Mas por trás dessas acrobacias há sofrimento e maus-tratos. Associações protetoras dos animais pedem que se proíba a utilização deles em espetáculos, e os empresários circenses se negam, alegando que isso acabaria com o negócio. Na Itália, existem 130 circos, o maior número da Europa, em mãos de 60 famílias que mantêm cativos 1.300 animais. Os ativistas destacam que muitos são treinados com a aplicação de golpes, chicotadas, descargas elétricas e privação de alimentos, ao que, freqüentemente, se somam drogas. “Os animais vivem mal e as técnicas de treinamento são cruéis e violentas. O governo pouco faz para controlar a atividade dos domadores”, disse ao Terramérica Givanni Guadgna, responsável do setor de circos da Liga contra a Vivisecação de Animais (LAV).

Os animais dos circos estão em piores condições do que os de zoológicos, presos em pequenas jaulas ou viajando milhares de quilômetroem vagões sem água nem iluminação. Em 2003, a Procuradoria de Reggio de Calábria, no sul da Itália, baixou um decreto de condenação contra o circo de Luana Orfei, por manter presos, em um espaço reduzido, 13 tigres, três deles filhotes, um hipopótamo, um cavalo, um pônei, um asno, três ursos e dois bisões. O circo de Nando Orfei foi advertido no ano passado por manter presos quatro elefantes com correntes em condições incompatíveis com sua natureza. Os proprietários reconhecem o uso de métodos violentos. A diretora de circo Liana Orfei diz que as hienas não podem ser domadas mesmo que sejam castigadas cem vezes. Vai além: comenta que as focas só podem ser amestradas pela fome, já que sua pele é muito delicada para que se possa bater nelas. “Condenamos e denunciamos os que maltratam os animais porque queremos que tenham a melhor vida possível”, disse ao Terramérica Antonio Girola, representante da Associação Européia do Circo, que reúne os cem maiores do continente.

Os animais prisioneiros e sob grande pressão apresentam transtornos de comportamento: os tigres caminham sozinhos em círculos, os cavalos movem a cabeça o tempo todo e os elefantes ficam balançando continuamente. Segundo especialistas, o “sorriso” dos chimpanzés quando fazem seus números expressa tensão, do mesmo modo como os animais deixam o picadeiro para se refugiarem em suas jaulas após se apresentarem. Liana Orfei conta que no verão passado, quando o circo foi montado nas praias de Puglia, no sul da Itália, a elefante Jennie foi amarrada, como de costume. Quando viu o mar, parecia ter enlouquecido. O animal conseguiu escapar das correntes e correu na direção da água, ficando em um local onde a profundidade não passava de um metro. Permaneceu ali por dois dias, apesar das ameaças e privação de alimento. Em 1997, outra elefante, do circo Errani, matou seu domador; um elefante do circo Medrano lançou ao ar um menino e outro, do circo Williams, quebrou suas correntes, correu por Roma e causou numerosos prejuízos. A Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres (CITES), subscrita pela Itália, terminou com o tráfico de animais em extinção para os circos.

Os traficantes, por exemplo, matavam até 15 chimpanzés para levarem apenas um. “Apreendemos um gorila, elefantes, tigres e leopardos em situação ilegal. A maioria destes animais tinha um comportamento anormal para a sua própria espécie. Eles apresentavam problemas de saúde e comiam espaguete e até chocolates”, contou ao Terramérica o diretor do Serviço CITES do Corpo florestal, Ugo Mereu. “Um chimpanzé não deixava que tirássemos o jaleco que estava usando. Levamos um gorila para o zoológico de Roma, mas, como nunca havia visto nenhum outro de sua espécie, ficou aterrorizado”, acrescentou. Os circos recebem ajuda estatal, por serem considerados atividades culturais, mas “o espetáculo não é educativo. “É um modelo de aprendizagem social perigoso que pode modificar a relação das crianças com os animais. Significa que a dominação e a prepotência humana sobre os seres mais fracos são aceitáveis”, afirmou ao Terramérica Ilaria Marucelli, da LAV.

* A autora é colaboradora do Terramérica.

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