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A destruição causada pelo Furacão Mitch ainda dói em Honduras.
Crédito: Photo Stock
Reportagem
Pequena melhoria na prevenção de furacões
Por Thelma Mejía

O trauma causado pelo Furacão Mitch colocou em andamento alguns mecanismos de autodefesa em Honduras, mas não há uma política nacional para reduzir sua fragilidade diante dos furacões.

TEGUCIGALPA, 10 de setembro (Tierramérica).- Em plena temporada de ciclones, Honduras apresenta melhor capacidade de reação, mas continua sem políticas para reduzir sua vulnerabilidade diante dos desastres naturais, como impedir que sejam habitadas as áreas devastadas há nove anos pelo Furacão Mitch, afirmam especialistas. Somente em Tegucigalpa, uma das regiões mais vulneráveis às inundações, são necessários US$ 78 milhões para melhorar a infra-estrutura em áreas de risco, disse o prefeito da capital, Ricardo Alvarez, entrevistado pelo Terramérica.

O Rio Choluteca, que atravessa a capital hondurenha, precisa ser dragado para que volte ao seu curso original, com custo estimado em US$ 4,2 milhões. Além disso, muita gente voltou a morar nas suas margens por falta de um plano de contingências dentro da política nacional e nos 298 municípios do país, afirmou Álvares. Existem alguns avanços. O Furacão Félix, que entrou enfraquecido no território hondurenho no dia 5 deste mês, causando chuvas intensas e transbordamento de alguns rios, demonstrou a capacidade de coordenação de instituições estatais e locais, sob a liderança da Comissão Permanente de Contingências (Copeco), segundo vários especialistas consultados.

“Isto não acontecia antes. Havia muito zelo profissional entre as instituições e os dados eram dispersos, confusos. Agora vemos uma equipe mais coordenada a partir dos governos locais e em nível central, o que permitiu gerar um amplo processo de alerta à população”, disse o meteorologista e catedrático da estatal Universidade Nacional Autônoma de Honduras, Nabil Kawas. O Serviço Meteorológico Nacional ganhou mais experiência, acrescentou. Após uma capacitação realizada em 2005, consegue prever com mais eficiência a quantidade de chuva que pode cair sobre um determinado território, o que permite controlar os depósitos de água potável e as represas das hidrelétricas e efetuar descargas programadas em caso de necessidade, explicou.

Além disso, “as pessoas aprenderam a se proteger e se preocupar, não houve mortos, e isto demonstra que estamos melhor do que quando tivemos de enfrentar o Mitch”, afirmou Kawas. Cerca de sete mil pessoas morreram em Honduras e mais de três mil na Nicarágua quando o Mitch assolou a América Central, em outubro de 1998. Por causa desse desastre, os dois países retrocederam duas décadas em matéria de infra-estrutura e desenvolvimento. Agora, os comitês de emergência locais de Tegucigalpa funcionaram com tal precisão que “se sabia, por exemplo, qual mercearia estava em uma área de maior risco em comparação com outras, e o trabalho de convencimento pessoal para evacuação teve resultados positivos”, afirmou o prefeito Alvarez.

Nos bairros onde a prefeitura não conseguiu limpar as bocas-de-lobo para evitar inundações, os próprios moradores se organizaram para fazê-lo. Para o presidente Manuel Zelaya, ter evacuado 25 mil pessoas em menos de um dia foi um sucesso. O alerta permitiu essa evacuação em quatro dos 18 departamentos do país, a maioria na região da Selva de Mosquitia, no Oceano Atlântico e fronteiriça a regiões nicaragüenses danificadas pelo Félix, como Puerto Cabezas e o Cabo de Graças a Deus.

A faixa de Mosquitia, uma vasta área compartilhada por Honduras e Nicarágua, e as florestas das cordilheiras das duas nações contribuíram para que o Félix - que chegou à terra no dia 4 como furacão de potência máxima - a enfraquecer e não causar danos graves em Honduras, segundo os especialistas consultados. O Furacão Félix entrou por uma das regiões com mais florestas da América Central, de montanhas com vegetação, e “nos salvamos por um golpe de sorte, porque. se esse furacão entrasse por outro setor. teria nos destroçado”, afirmou a bióloga e catedrática universitária Mirna Marin. Na Nicarágua morreram cerca de 40 pessoas, 120 estavam desaparecidas e 50 mil foram prejudicadas pelo Félix.

Para Marin, Honduras é hoje tão frágil quanto depois da passagem do Mitch. “As pessoas voltaram a viver perto dos rios e nas áreas inundáveis, e não existe uma política estatal que evite essas ações”, afirmou. Além disso, “continua o desmatamento nas bacias e montanhas, sem preocupação com sua importância em situações de risco como a que acabamos de enfrentar”, acrescentou a bióloga. As florestas têm um papel fundamental na capacidade dos solos de absorção das chuvas.

O ex-comissário da Copeco, Juan Carlos Elvir, acredita que em Honduras faltam ordenamento territorial e apoio orçamentário às instituições de contingência e prevenção. “Embora tenhamos melhorado muito, falta aprofundamento na gestão e mais agressividade na participação da cidadania”, afirmou. “Ainda não temos cultura para evitar um comportamento social de pânico como o que se viveu estes dias com as filas nas lojas, nos supermercados, bancos e postos de combustível”, disse Elvir.

* Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ sigla em inglês de Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).

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