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| Destaques O verdadeiro custo de voar Por Julio Godoy
Determinados aviões de empresas subvencionadas na Europa colocam em risco o clima e a camada de ozônio. Por enquanto elas se livram de regulamentações ambientais.
PARIS, (Tierramérica).- O auge das companhias aéreas de “baixo custo” na Europa, incentivadas por fortes políticas fiscais, está aumentando a presença de gases nocivos na atmosfera e tomando o lugar de meios de transporte menos poluentes e mais eficientes para percursos curtos, como a ferrovia. Gisela B. é uma ecologista convicta. No telhado de sua casa em Bremen, norte da Alemanha, instalou painéis solares para gerar energia, não tem automóvel e economiza água e eletricidade sempre que pode. Entretanto, quando se trata de viajar para fora do país, embora conheça os graves efeitos do transporte aéreo sobre o clima, não vacila em utilizar uma das companhias que oferecem vôos internacionais a preços tão baixos quanto um dólar.
Essas empresas - erroneamente chamadas de baixo custo - proliferaram nos últimos anos nos Estados Unidos e na Europa, apesar do colapso do transporte aéreo provocado pelo terrorismo internacional. Apenas na Alemanha operam mais de dez companhias comerciais, que oferecem viagens para as mais importantes cidades do país e destinos turísticos atraentes, como a Riviera Francesa, Maiorca ou Costa do Sol na Espanha, a preços ridiculamente baixos.
Para a costa mediterrânea francesa, por exemplo, Gisela pode voar de Berlim, Colônia ou Frankfurt em aviões de pelo menos dez companhias por preços inferiores a US$ 20, ida e volta. “Não deveria utilizar essas companhias por causa dos efeitos ambientais dos vôos”, reconheceu Gisela ao Terramérica. “Mas não posso evitar a tentação de um preço tão baixo”, disse. Essas empresas (como Easyjet, Ryanair e Germanwings) podem se permitir semelhantes tarifas graças às generosas subvenções que recebem de governos nacionais, que se negam a taxar o combustível para avião, o único livre de impostos no mundo. Além disso, a aviação comercial não paga imposto por valor agregado, aplicados a todas as outras transações comerciais.
Os governos locais, por sua vez, exoneram de outros impostos as companhias aéreas de “baixo custo”, a fim de atraí-las para seus pequenos aeroportos pouco usados desde que perderam sua utilidade militar com o fim da Guerra Fria. Esta política levou à modernização de minúsculos aeroportos como os de Frankfurt-Hahn, Drotmund, Lübeck, Colônia e Zweibruecken, na Alemanha; ou os de Estrasbrugo, Bergerac, Montpellier e Carcassone, na França, e outros na Grã-Bretanha. Simultaneamente, as companhias reduzem seus custos graças às reservas pela Internet, ao uso de apenas um tipo de avião, que exige menos manutenção, e utilização de um mínimo de pessoal de bordo.
Para o especialista da organização ecologista Bund, Werner Reh, esta política “é completamente absurda. Os governos locais aplicam de maneira caótica suas subvenções e competem entre si para obter a instalação de linhas aéreas de baixo custo”, disse Reh ao Terramérica. Várias dessas empresas não sobrevivem, inutilizando muitos investimentos de governos locais em aeroportos que permanecem inativos, recordou. Além disso, a ferrovia, uma alternativa viável para trajetos intereuropeus, sofre uma competição desleal.
Apesar da crescente evidência científica sobre os efeitos ambientais perniciosos do tráfego aéreo, os governos não conseguem elaborar uma política racional sobre a matéria. A queima de combustível de avião (derivado do petróleo) libera gases causadores do efeito estufa que aquecem a atmosfera, um processo que está alterando o clima do planeta. O tráfego aéreo mundial produz anualmente emissões superiores a 600 milhões de toneladas de dióxido de carbono, o principal desses gases, além de nitratos, fuligem, sulfatos e vapor de água, contribuindo também para a destruição da camada de ozônio, que protege a vida terrestre e marinha dos raios solares prejudiciais.
A ecologista Tourism Concern, com sede na Grã-Bretanha, prevê que em 2015 a metade da destruição anual da camada de ozônio será causada pelo tráfego aéreo comercial. A Comissão Real Britânica sobre a Poluição Ambiental estimou, em 2002, que as emissões da aviação comercial são “o maior contribuinte para o aquecimento do planeta”, e pediu urgência aos governos para a elaboração de políticas que privilegiem o uso do trem. Tom Blundell, professor de bioquímica da Universidade de Cambridge e presidente da Comissão, lamentou que o único instrumento internacional para redução dos gases que causam o efeito estufa, o Protocolo de Kyoto, que entrará em vigor em fevereiro de 2005, “não inclua as emissões provocadas pela aviação internacional”.
”Este tema continua sendo muito sensível”, disse ao Terramérica uma fonte da Unidade de Ação para o Ozônio e a Energia do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), com sede em Paris. A fonte admitiu que “é muito difícil introduzir o problema das emissões produzidas pela aviação comercial em tratados internacionais” como o Protocolo de Montreal, que estabelece proteções para a camada de ozônio.
“Os governos estão à mercê do lobby da indústria” aeronáutica, disse ao Terramérica Mônica Legge, especialista em transporte do grupo alemão Robin Wood, com sede em Hamburgo. “A propaganda sugere que todos podemos voar ao redor do mundo quase de graça e sem problemas. Porém, é hora de assumirmos as conseqüências e agirmos: é preciso reduzir a aviação”, ressaltou. Contudo, Gisela B. não ouviu a mensagem. Acaba de reservar passagem de ida e volta para Santo Domingo por um punhado de dólares. * O autor é correspondente da IPS. |