 | Carregamento de madeira navega pelo Rio Atrato, Chocó. Crédito: Jesús Abad Colorado | Reportagem A riqueza inverossímil de Chocó Por Constanza Vieira e Diana Cariboni, enviadas especiais
Não existe um modelo de desenvolvimento para o megadiverso Chocó colombiano. Alguns poucos pesquisadores buscam a chave da prosperidade para suas paupérrimas comunidades.
QUIBDÓ, Colômbia, 8 de outubro (Tierramérica).- “Vamos pru mar, vamos pru mar”, corre de vez em quando uma nervosa voz no município de pescadores de Bahia Solano, no Pacifico colombiano. Avistaram um vulto nas águas e embarcam atrás de uma captura não tradicional: pacotes de cocaína jogados por narcotraficantes em fuga. O paradoxo: essa prática “permite que ainda exista uma oferta pesqueira muito alta”, explica ao Terramérica o engenheiro florestal William Klinger, diretor do Instituto de Pesquisas Ambientais do Pacifico (IIAP), com sede em Quibdó, capital do departamento colombiano de Chocó.
Os pescadores artesanais dão trégua aos peixes durante esta “vantagem momentânea”. Se têm sorte, encontram e vendem a droga, e ganham o mesmo que em décadas de trabalho no mar. Como o pescado é a base da alimentação na área, nesses dias, para muitos não há o que comer, e aos turistas são servidas carne de frango e boi. Foi o que constatou um estudo do IIAP em Cabo Marzo, jurisdição do município de Juradó, vizinho de Bahia Solano, para conhecer a biodiversidade marinho-costeira do Chocó biogeográfico, uma região de 145 mil quilômetros quadrados que compreende o sul do Panamá, a parte noroeste da Colômbia e sua costa do Pacifico, e o norte do Equador. O coração desta região trinacional é o departamento colombiano de Chocó, com 46.530 quilômetros quadrados de enormes riquezas e a população mais pobre do país.
Outra “pesca” fora do comum ocorre quando as comunidades “apreendem” embarcações de pesca, quase sempre de atum, que violam a milhagem mínima permitida, pescam por arrastão e arrasam com tudo. A comunidade os mantém retidos por um tempo, depois deixam partir. “São barcos daqui mesmo, os donos são os senadores, por isso não acontece nada”, conta o funcionário. O IIAP termina este ano o trabalho de campo em Bahia Solano-Juradó e vai apresentar, em meados de 2008, um plano de manejo integral da área. Terá, então, iniciado uma pesquisa semelhante no porto de Tumaco, departamento de Nariño, sul do país, em conjunto com a ong Conservação Internacional. Ao contrário de outros centros científicos, o IIAP, criado em 1993, tem como missão promover o desenvolvimento e a autonomia das comunidades negras e indígenas, habitantes característicos do Chocó biogeográfico.
Cada pesquisa busca ter aplicação muito rápida. Seu diretor é eleito por uma assembléia de 24 pessoas, entre elas oito representantes das comunidades negras e oito das indígenas, com territórios coletivos. O Fundo Mundial para a Natureza (WWF) menciona entre sete mil e oito mil plantas e cem aves que são encontradas somente no Chocó biogeográfico, mas “não há inventários contundentes, o que não conhecemos é maior”, diz Klinger. Há locais não explorados, “onde não foram capazes de penetrar nem o narcotráfico nem as forças armadas irregulares” do conflito colombiano, acrescenta.
Esta é uma das áreas mais chuvosas do mundo, com até 12 mil milímetros anuais, o que descarta a queima da floresta para ampliar a fronteira agrícola, comum em outros meridianos. Segundo o WWF, o Chocó biogeográfico mantém intacta “cerca de 58% do total da área” de floresta. Seus metais preciosos (ouro, prata e platina) atraíram a ocupação espanhola que introduziu africanos escravizados para explorá-los. Para Klinger, a relativa conservação natural se deve, sobretudo, “à dinâmica cultural dos negros e indígenas, que não têm cultura de acúmulo de capital e tiram da floresta ou da água apenas o que precisam para sobreviver”.
Os processos de concessão coletiva de propriedade das terras das comunidades negras, a partir da Constituição de 1991, afiançaram sua pertinência ao território. Quarenta anos atrás, esta era “uma região primitiva, com poucos assentamentos urbanos e escassa intervenção”, disse ao Terramérica o empresário Paolo Lugari, o primeiro diretor da então chamada Corporação Nacional para o Desenvolvimento do Chocó (Codechocó), fundada em 1968. Uma tarefa de Lugari era identificar opções econômicas para o departamento, mas “nenhum dos modelos de desenvolvimento existentes é apropriado para o Chocó”, afirmou. Para o empresário, o aproveitamento da floresta deve se basear em colher, “não em cortar. É preciso um manejo sustentável, que é muito mais que sustentado.”.
Nessa busca, o centro de pesquisa Gaviotas, fundado por Lugari, fez um estudo conjunto com o etnobotânico norte-americano Richard Evans Schultes, sobre a patauá (Jessenia polycarpa), palma cujo fruto fornece um óleo “da mesma qualidade que o de oliva”, com aplicação em oleoquímica e como biocombustível. Schultes, da Universidade de Harvard, “foi orientador de uma tese de doutorado sobre a patauá e acabou montando um extrator de óleo no Gaviotas”, que forneceu a tecnologia. O botânico concluiu que a experiência era aplicável em Chocó, pois seu resultado foi “o ideal de todo projeto industrial: factibilidade social, econômica e ambiental ao mesmo tempo”, contou Lugari. No início dos anos 70, Chocó tinha “a maior população silvestre de patauá do país”, segundo Lugari. Hoje, já quase não é vista, diz Klinger.
A proposta pioneira nunca prosperou. Por outro lado, a partir de 1996, se expande desde o norte do território a plantação maciça da africana palma dendê (Elaeis guineensis Jacq). “A mudança de uso da terra não deveria ocorrer por uma monocultura de palma dendê”, segundo Klinger. A biodiversidade destas florestas produz uma “reciclagem de nutrientes que garante o surgimento de outras espécies”. Por isso, qualquer monocultura “que tire a riqueza de nutrientes da floresta sofrerá a deterioração no médio prazo”.
Klinger realiza uma pesquisa chamada “Valorização integral de florestas em territórios coletivos do Chocó biogeográfico”, que pretende medir essa riqueza sob diferentes perspectivas. Uma é a dos produtos que fornecem madeiras do Chocó, famoso por suas árvores finas como o almendro (Oleiocarpon panamense), mogno (família Meliaceae) e arariba rajado (Centrolobium paraense Tul, var Oriniocense Benth). Em linha com Lugari, e outro aspecto a estudar, o IIAP vê mais valor em espécies não-madeireiras, que fornecem tinta, resina, borracha e as plantas medicinais.
Também será feito um inventário da pouco pesquisada fauna, e outro dos serviços ambientais prestados pela floresta, como captura de carbono, proteção de margens hídricas, aproveitamento turístico e pesquisa. As comunidades indígenas e negras “estão completamente de acordo com precisarem saber o valor econômico do que têm”, assegura o diretor do IIAP. O pagamento pelo desmatamento evitado permitiria que as comunidades do Chocó gerassem renda no contexto do combate global à mudança climática.
Além disso, “muitos macroprojetos (de exploração florestal ou de mineração e rede de infra-estrutura viária e de energia) poderiam passar por territórios coletivos. Se isso ocorresse hoje, não teríamos nem idéia” de qual é o valor da compensação, explica o engenheiro. O Conselho Comunitário Los Riscales, dono de Nuquí, no Golfo de Tribugá, e a comunidade de San Luis de los Robles, em Tumaco, já acertaram parceria com o IIAP para começar essas pesquisas em seus territórios. Além disso há técnicas para fazer com que certas árvores cresçam mais rápido. Em seis estações ambientais, técnicos do IIAP regulam a abertura de claros em florestas maduras, para que entre a luz, “que faz crescer as árvores e aumenta a regeneração natural”.
Isto também possibilita o “crescimento e desenvolvimento de classes diametrais (de árvores) que vêm abaixo”, explicou. “Patentes médicas” é outro projeto do IIAP, “nossa maior novidade”, diz Klinger: a validação do conhecimento tradicional da floresta chocana dos “chinangos”, médicos da cultura negra, com um “contrato prévio com os médicos tradicionais sobre como estaria distribuída a patente. Eles não vão soltando informação facilmente. A relação com os médicos tradicionais é dificílima”, e dois médicos ocidentais souberam levá-la, revelou Klinger ao Terramérica.
 |
"Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre Objetivos de Desenvolvimento do Milênio no Chocó. O projeto que deu origem a este trabalho foi o ganhador das Bolsas Avina de Pesquisa Jornalística. A Fundação Avina não assume responsabilidade pelos conceitos, opiniões e outros aspectos de seu conteúdo." |
* |