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Em poucas décadas o mundo poderá enfrentar uma escassez tão grave quanto a do petróleo: a do fosfato.
Crédito: Photo Stock
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Agricultura diante da grave escassez de fosfato
Por Mario Osava

As reservas mundiais de fósforo, imprescindível para os cultivos, podem se esgotar nos próximos 60 a cem anos, alertam especialistas.

RIO DE JANEIRO, 15 de outubro (Tierramérica).- O escasso fosfato, um fertilizante indispensável para a agricultura, preocupa os especialistas em solo, diante dos vorazes planos do Brasil e de muitos outros países na corrida pelos biocombustíveis. Sal do ácido fosfórico, o fosfato é um composto químico formado por fósforo e oxigênio. O fósforo é um mineral “finito e insubstituível”, cujas reservas conhecidas e de exploração economicamente viável podem se esgotar em prazo de 60 a cem anos, se for mantido o ritmo atual de crescimento do seu consumo mundial, disse ao Terramérica Eurípedes Malavolta, agrônomo e pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, da Universidade de São Paulo (USP).

“Sem fósforo não haverá agricultura, nem biocombustível, nem vida. A humanidade acabará”, enfatizou Malavolta. Outros minerais, como nitrogênio, potássio, cobalto, magnésio e molibdênio, também são indispensáveis, mas têm fontes menos limitadas e, fora os dois primeiros, são de baixo consumo. “O fosfato corre o risco de esgotar-se antes do petróleo”, corroborou José Oswaldo Siqueira, professor de Microbiologia do Solo na Universidade Federal de Lavras, em um encontro sobre Bioenergia realizado no dia 26 de setembro, em São Paulo. Uma forte expansão da agricultura com fins energéticos aceleraria esse esgotamento, o que é um dado a ser considerado “em uma visão estratégica”, disse ao Terramérica.

Denominar como “renováveis” os biocombustiveis – etanol e biodiesel destilados da cana-de-açúcar, do milho e de diversas oleaginosas – não deve nos fazer ignorar que alguns fatores de produção agrícola, como solo e nutrientes minerais, não são infinitos, destacou Siqueira, diretor de Programas Temáticos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. A Austrália não se interessa em incentivar a agroenergia por causa de suas limitações hídricas, acrescentou. Sem uma “pouco provável” descoberta de novas e grandes jazidas, as reservas atuais de fosfato durarão apenas até meados deste século, disse ao Terramérica Jean Marc von der Weid, coordenador de Políticas Públicas da não-governamental Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa, que defende a agroecologia.

As técnicas agroecológicas reduzem muito a perda de fertilizantes, promovendo a recuperação do que resta nos dejetos vegetais, afirma Weid. Além disso, pode-se priorizar espécies e variedades mais adaptáveis a solos pobres em fósforo, acrescentou. “Sou uma voz clamando no deserto, como São João Batista”, queixa-se Malavolta, durante muito tempo uma voz solitária no Brasil, alertando para a importância de um uso mais eficiente do fosfato. Melhorando a terra ácida com a cal “pode-se usar um terço do fosfato que empregamos hoje”, acrescenta. E o Brasil tem um solo muito ácido e pobre em fósforo, ressalta.

A modificação genética para desenvolver variedades que requerem menos fertilizantes é outro caminho que já se percorre. “Nenhuma mágica da engenharia genética produzirá uma espécie que não precise de fosfato”, mas chegará a uma que o consuma em menor quantidade, disse Malavolta. O problema no Brasil é que não são usadas tecnologias disponíveis para utilizar melhor o fertilizante, como análise de solo e de plantas, e acaba-se aplicando mais do que o necessário, desperdiçando um bem que “é impossível fazer durar indefinidamente”, lamentou o especialista.

O excesso de fosfato na plantação faz com que apenas 30% sejam absorvidos pelas plantas e reduz a produtividade, disse Siqueira. A maior parte fica no solo. Outra parte, com a erosão, contamina águas e faz proliferar vegetações aquáticas, prejudiciais para a saúde humana. A absorção de 30% ocorre na primeira semeadura, mas as seguintes podem aproveitar boa parte do fosfato retido no solo. Porém, por desconhecimento, os agricultores aplicam fosfato a cada ano, gerando desperdício e danos ao cultivo, explica Malavolta.

A semeadura direta, que deixa na terra os resíduos da colheita, fertilizando e retendo umidade no solo, é outra forma de reaproveitar o fósforo, diz Malavolta. Reciclar lixo e esgoto para recuperar o fosfato é outra medida fundamental para prolongar as reservas existentes, concordam este especialista e Von der Weid. Nos dejetos se perde muitos nutrientes, inclusive porque uma pessoa adulta não precisa da mesma quantidade que uma criança. Outra complicação mencionada por Malavolta é a concentração das jazidas nos países do norte da África, especialmente no Marrocos, que possui cerca de 42% das reservas mundiais, incluindo o Saara Ocidental, um território que luta por sua independência. A China, com 26%, e os Estados Unidos, com 8%, são outros privilegiados, mas também consomem muito e não podem exportar tanto quanto o Marrocos.

Se os países árabes perderem a força que exercem no mercado do petróleo, a terão no do fosfato, que também ficará escasso e caro, prevê o especialista. Não me surpreenderia se surgisse uma organização de países exportadores de fosfato, brincou Malavolta. O Brasil, com apenas 0,4% das reservas mundiais, depende das importações. Seus maiores fornecedores são Estados Unidos, Rússia e Marrocos.

* O autor é correspondente da IPS.

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