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| Reportagem Moluscos invasores chegaram para ficar Por María Laura Mazza
O problema das espécies exóticas é identificado por especialistas como uma das maiores ameaças aos corpos de água continentais e oceanos.
MONTEVIDÉU, (Tierramérica).- Pequenos moluscos exóticos vindos da Ásia e da África para a bacia do Rio da Prata afastam espécies locais, multiplicam-se aos milhões, obstruem redes de água potável, dificultam a navegação e prejudicam sistemas hidrelétricos. São impossíveis de erradicar, advertem os especialistas. Estas espécies viajam como larvas nas águas usadas como lastro pelos navios em seus portos de partida para ganhar peso e melhorar a estabilidade, e que são descarregadas quando chegam a zonas pouco profundas, como o Rio da Prata. Também chegam como exemplares adultos, presos a cascos, correntes e quilhas.
Vindos dessa maneira, esses organismos afastam espécies autóctones e modificam as condições ambientais, alerta um estudo realizado por especialistas do Museu Argentino de Ciências Naturais, Museu da Prata, da Universidade do Mar da Plata e pelo Instituto Argentino de Oceanografia. Sem inimigos naturais - predadores ou competidores pelos recursos - e com grande capacidade para adaptar-se a novas condições, expandem-se rapidamente. Em poucos anos, chegaram aos rios do norte da bacia, como o Uruguai e o Paraná, até chegar ao Brasil e ao Paraguai, e se espalharam para o sul pela costa atlântica da Argentina.
Sua erradicação é “absolutamente impossível”, disse ao Terramérica o biólogo marinho argentino Pablo Penchaszadeh, responsável pela pesquisa que integra o Projeto de Proteção Ambiental do Rio da Prata e sua Frente Marítima (Freplata), uma iniciativa conjunta argentino-uruguaia com apoio internacional. O mais daninho é o mexilhão dourado, ou Limnoperna fortunei, de água doce procedente da China e do sudeste da Ásia, que não costuma ser explorado para consumo humano porque mede apenas de dez a 25 milímetros. “Desde sua primeira aparição na Argentina, em 1991, avançou quase 250 quilômetros por ano e se converteu em uma verdadeira praga”, disse Penchaszadeh.
O mexilhão dourado se reproduz num ritmo alarmante, pois cada fêmea coloca milhares de larvas. Por sua capacidade de aderir a qualquer superfície dura, constrói colônias que obstruem completamente tubulações, filtros e canais de irrigação. Em 1996, o mexilhão invadiu os rios Paraná e Paraguai, em 1999 chegou à bacia do Rio Guaíba, no Rio Grande do Sul, e em 2001 apareceu no Rio Uruguai. Em apenas quatro anos sua densidade passou de quatro ou cinco indivíduos por metro quadrado para mais de 150 mil por metro quadrado.
À medida que o mexilhão ocupa espaços, modifica a fauna local, afastando espécies nativas de moluscos. Antes da chegada do mexilhão dourado ao balneário argentino Bagliardi, no Rio da Prata, no local eram comuns três espécies de caracóis (Heleobia piscium, Chilina fluminea e Gundlachia concentrica). Depois da aparição do molusco invasor, as duas últimas são vistas somente acidentalmente, segundo o pesquisador Gustavo Darrigran, que detectou a Limnoperna em 1991.
A invasão chegou a afetar o abastecimento da estação de tratamento de água da Obras Sanitárias do Estado (OSE), em Águas Corrientes, sul do Uruguai. O molusco está instalado em todas as represas hidrelétricas da região do Mercosul (formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), como Salto Grande, no Rio Uruguai, e Itaipu e Yaciertá, no Rio Paraná. Por sua causa foram reforçados os trabalhos de manutenção e limpeza para prevenir um colapso geral dos sistemas.
Já o Corbucula fluminea, um marisco procedente da Turquia, Japão, Indonésia, Austrália e África vive enterrado na areia e também causa obstrução de tubulações e canais de irrigação, embora sem fixar-se neles. Como é acumulador de substâncias tóxicas, pode ter efeitos nocivos para a saúde da população, pois serve de alimento para peixes de consumo humano. Outros invasores são certo tipo de poliquetos, vermes que vivem dentro de pequenos tubos, muito cortantes, e que crescem em colônias até formar arrecifes.
A velocidade de reprodução e a falta de medidas preventivas fazem das espécies invasoras um problema explosivo. A Freplata propõe estabelecer um sistema para controlar a água de lastro dos navios antes de ser despejada no rio. Para enfrentar o problema, as autoridades aplicam biocidas específicos ou utilizam pinturas repelentes, mas todas estas substâncias são contaminantes. Uma medida inócua, mas pouco prática, é extrair da água colônias inteiras de moluscos.
“Propomos a prevenção de invasões de nova fauna e que os métodos utilizados para o controle dos organismos já instalados não sejam mais prejudiciais do que os próprios invasores”, explicou Penchaszdeh, que integra o Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas, da Argentina. Os governos não contam com estudos sobre os prejuízos econômicos e a população desconhece o fenômeno, embora “o custo de manutenção e limpeza das instalações tenha reflexo na tarifa dos serviços” de água ou eletricidade, disse ao Terramérica o especialista em assuntos econômicos e sociais da Freplata, Hugo Roche.
A globalização da economia faz das espécies invasoras um fenômeno mundial. Para os especialistas é uma das quatro grandes ameaças aos corpos de água continentais e oceanos, junto com as fontes terrestres de contaminação, a superexploração da pesca e a alteração ou destruição do hábitat. A Organização Internacional Marítima conta com um programa específico para ajudar os países em desenvolvimento a reduzir a transferência de organismos nocivos através das águas de lastro dos navios. * A autora é colaboradora do Terramérica. |