 | Extração do veneno de um escorpião azul. Crédito: Randy Rodríguez | Destaques Veneno da esperança Por Patrícia Grogg
Cientistas que realizarão testes clínicos sobre a ação anticancerígena do veneno de um escorpião cubano forneceram a toxina a mais de oito mil pacientes, desde 2000.
HAVANA, 26 de novembro (Tierramérica).- Com discrição e esperança, pesquisadores cubanos avançam em estudos para validar cientificamente dúvidas e testes empíricos sobre as propriedades anticncerígenas da toxina do escorpião azul (Rhopalurus junceus), uma espécie endêmica de Cuba. “Estamos terminando os estudos de pesquisas pré-clínicas para obter um expediente de registro e conseguir o aval das entidades reguladoras de Cuba para começar testes clínicos em seres humanos”, disse o microbiologista Aléxis Díaz, chefe do grupo de pesquisa no Labiofam (Laboratório Biológico Farmacêutico).
Essa empresa lidera os estudos, em colaboração com o Insituto de Medicina Tropical “Pedro Kourí” e o Hospital Oncológico de Havana. Às suas portas chegam diariamente pacientes nacionais e estrangeiros em busca dessa substância obtida do veneno do escorpião. “Cheguei aqui em abril passado, operado de uma lesão maligna nas amídalas. Comecei a beber duas vezes por dia uma dose dessa toxina diluída em 250 ml de água e antes de dois meses comecei a notar uma melhora. Já me alimento sozinho, ganhei peso e sou uma pessoa ativa novamente”, afirmou Pedro Gutiérrez, advogado de 45 anos.
Muitos pacientes relatam experiências semelhantes de um antigo uso tradicional, estudado inicialmente por pesquisadores de Guantânamo, no extremo sudoeste de Cuba. Desde meados dos anos 90, o produto tem marca registrada como Escozul, nome que pode mudar no futuro. Contrário em fixar prazos, Díaz alertou que ainda há um longo caminho. “Temos uma história de tratamento de pacientes, tanto cubanos quanto estrangeiros, dos quais estamos coletando dados, verificando o efeito farmacológico do produto. Porém, não são estudos que permitam validar cientificamente sua propriedade em pacientes com tumor”, explicou.
As pesquisas pré-clínicas começaram em 2000 para validar a ação antitumor da toxina, que também possui qualidades analgésicas e antiinflamatórias. “Tudo isso deve ser submetido a exame em testes clínicos que incluam provas e experimentos muito regulados e controlados”, ressaltou o especialista. Por sua vez, Neysa Verges, chefe do grupo médico do Labiofam, disse que desde então foram tratados mais de oito mil pacientes com todo tipo de lesão causada por tumores. “Em geral, se não chegam em um estágio final da doença, obtemos bons resultados. Em casos muito graves, pelo menos ajudamos a melhorar a qualidade de vida da pessoa”, afirmou.
Os pacientes vão ao Labiofam com cópias de seus históricos clínicos e recebem gratuitamente o produto. Sempre lhes é explicado que se trata de um remédio natural em fase de pesquisa, que não apresenta interações negativas com outros tratamentos nem efeitos secundários adversos. A reação do doente depende de muitos fatores. “Pessoas com uma mesma patologia podem responder de maneira diferente, também influi a idade, o grau da lesão, as localizações de metástases e inclusive o estado emocional, porque se um paciente está psicologicamente deprimido seu sistema imunológico não funcionará”, disse Verges.
Para responder às necessidades da pesquisa e dos pacientes, a estratégia do Labiofam inclui incrementar a produção da criação da espécie em cativeiro. Já existem criadouros em quase todas as províncias do país. De cada escorpião se extrai uma vez por mês cerca de três gotas do veneno mediante choques elétricos. ‘Mesmo sendo nossa vontade ajudar, no momento não temos possibilidade de fornecer a toxina a todas as pessoas que precisam”, disse Judith Rodríguez, especialista em pesquisa do laboratório. Por sua vez, Verges esclareceu que o Labiofam não estabeleceu vínculos com empresas aéreas nem tem escritórios ou representações em outros países para coordenarem viagens a Cuba em busca do remédio. * Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (sigla em inglês de Federação Internacional de Jornalistas Ambientais). |