P & R “Os Estados Unidos farão limpeza ambiental?” Por Pilar Franco
Rigoberta Menchú, Prêmio Nobel da Paz de 1992, critica o “tratadocídio” dos Estados Unidos, isto é, seu permanente desprezo pelos tratados internacionais.
, (Tierramérica).- A líder indígena guatemalteca, membro do Conselho Editorial do Terramérica, considera que o ataque armado contra o Iraque é uma violação à Carta das Nações Unidas. E pergunta à administração de George W. Bush: no processo de reconstrução, levarão em conta o meio ambiente? A seguir extratos da entrevista ao Terramérica.
P.- A crise do Iraque também é uma ameaça em potencial para o meio ambiente, a que atribui o fato de essa questão estar ausente das manifestações contra a guerra?
R.- Creio que as manifestações populares que presenciamos em todas as partes do mundo separam certos temas, o que não implica que tenham menos importância, de modo algum. Assim, a mensagem centra-se na afirmação da paz e rechaço à guerra e ao intervencionismo. Outras mensagens, como o respeito aos direitos humanos e à ecologia talvez tenham feito menos barulho porque chamam menos a atenção. Ou porque existe a crença de que os custos ambientais deste conflito não serão enormes. E não é assim. A experiência da Guerra do Golfo de 1991 nos deixa enormes lições. Não esqueçamos que muitos poços de petróleo arderam durante semanas nessa região, o que fez com que uma densa fumaceira cobrisse a região.
Isso produziu um impacto ambiental. Temo, então, que o mesmo aconteça agora. Os incêndios provocados pelos bombardeios produzirão fumaça, além dos danos humanos e materiais previstos, se novamente os poços de petróleo forem incendiados. É preciso recordar também que os rios Eufrates e Tigre atravessam o Iraque e seguramente ficarão mais contaminados por esta nova loucura bélica. Seria o caso de se perguntar aos Estados Unidos e seus aliados se a tão prometida reconstrução desse país asiático também contemplaria uma limpeza ambiental, depois de todos os prejuízos que seguramente ocorrerão. É bom ter em mente que a maioria das bombas a serem utilizadas, se não todas, são ecologicamente nocivas. Não existem bombas “limpas”.
P.- O mundo pode aspirar uma Convenção de Genebra verde?
R.- O problema não é se o mundo negociará ou não esses acordos. A questão é que muitos governos não os respeitam. Desde 2001, o governo dos Estados Unidos se caracteriza por seu “tratadocídio”, isto é, seu rechaço a acordos internacionais. Desconheceu o de Kyoto (para combater o alteração climática), retirou a assinatura para a criação do Tribunal Penal Internacional, que acaba de entrar em funcionamento, entre outras coisas.
Os países podem negociar acordos, mas, lamentavelmente, são as potências que decidem como funcionam, como são financiados e, inclusive, se vão ou não operar. Hoje, a tendência parece ser o descumprimento dos tratados internacionais. De fato, o ataque armado contra o Iraque é uma violação da Carta das Nações Unidas. A moda parece ser a conduta unilateral das potências, sem fixar-se nos acordos existentes. É como a inauguração de uma nova lei da selva, a lei do mais forte.
P.- Os exércitos, que não evitam o uso de todo tipo de armas, acatariam normas ambientais?
R.- Nas guerras modernas não há normas. Se não, veja o que os Estados Unidos fazem com os presos em Guantânamo (capturados depois dos ataque de 11 de setembro de 2001, em várias cidades norte-americanas). Ali não se pode falar de convenções de guerra ou de respeito. Se voltarmos no tempo, a guerra do Vietnã agravou o desrespeito pelo meio ambiente durante os conflitos. Se quiser, voltemos 30 anos, ao bombardeio atômico contra Hiroxima e Nagasaki.
O uso desses tipos de armas de destruição em massa simboliza que não se dá importância ao meio ambiente, não importa a vida em todas suas formas. Apenas importa o nível de dano que se vai causar ao inimigo. Recordemos, também, a chamada Síndrome do Golfo como muito soldados ficaram doentes e, inclusive, alguns morreram, por causa das armas empregadas na época. Parece que nos conflitos recentes as convenções passaram para segundo plano, o que é lamentável.
P.- Quem paga a conta da destruição deliberada do meio ambiente durante os conflitos armados?
R.- Os povos. São eles que, no final, pagam todas as faturas, não apenas as ambientais. São eles que vêem como as terras ficam estéreis, porque as florestas foram arrasadas e, portanto, já não chove. Os rios são contaminados e as pessoas e os animais já não podem beber de sua água. Ocorrem secas, que colocam em risco a vida de milhões de pessoas. Por sua vez, essas secas causam fortes fluxos migratórios, que levam a catástrofes humanitárias. Como se vê, ativa-se um círculo vicioso. * A autora é colaboradora do Terramérica. |