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Reportagem
Batatas estréiam supergenes
Por Diego Cevallos

Cientistas dos Estados Unidos descobriram em uma espécie de tubérculo nativo do México a chave para combater a praga do tição tardio. As novas variedades estão sendo testadas no Vale de Toluca

MÉXICO, (Tierramérica).- .

Batatas armadas com genes resistentes ao seu principal inimigo, a praga do tição tardio, enfrentam no México sua prova de fogo, expostas a essa enfermidade em campo aberto. Até o momento a superaram, mas apenas parcialmente. Cientistas da Universidade de Wisconsin, dos Estados Unidos, são os pais da descoberta do chamado grupo de genes RB, embora jamais teriam conseguido se não tivessem em mãos a batata mexicana silvestre Solanum bulbocastanum. Nesta variedade não comercial encontraram genes resistentes ao Phytophthora infestans, a alga que provoca a praga do tição tardio, mal que se originou no México e se propagou no século XIX.

Os genes RB já conseguiram ser clonados e fundidos através da engenharia genética, com células de batatas de cultivo comercial, processo que foi publicado em julho na revista Proceedings, da Academia de Ciências dos Estados Unidos. “Nosso interesse (em encontrar uma solução para a praga) nasceu da constatação dos terríveis problemas que o tição tardio causa nas plantações de batata dos Estados Unidos, América Latina e Europa”, afirmou ao Terramérica o cientista John Helgeson, líder da equipe de pesquisadores responsável pela descoberta.

A batata, domesticada nos países andinos da América do Sul há cerca de oito milênios, é hoje o quarto cultivo destinado à alimentação mais importante do mundo, com produção anual próxima dos 300 milhões de toneladas. Um tubérculo de tamanho regular contém quase a metade da vitamina C que um adulto precisa por dia, no que supera em muito o arroz e o trigo.

A principal praga que afeta esta planta é o tição tardio. Até pouco tempo acreditava-se que era um fungo, mas foi reclassificado há dois anos como uma espécie de alga café. A enfermidade destruiu tal quantidade de plantações no século XIX, na Europa, que causou uma fome que deixou mais de um milhão de vítimas, apenas na Irlanda. Atualmente, o tição tardio é controlado com aplicação de grandes quantidades de fungicidas, a maioria nociva para o meio ambiente e cara para os agricultores. Os genes RB poderiam representar uma alternativa ao uso de agroquímicos graças à descoberta de Helgeson e seus colegas do departamento de Patologia Vegetal da Universidade de Wisconsin. No entanto, ainda falta realizar testes e cruzamentos entre diferentes espécies.

As batatas com os novos genes são cultivadas no México desde 1995, em plantações experimentais localizadas no Vale de Toluca, vizinho à capital do país, lugar onde se registra o tição tardio mais agressivo do mundo. Na região, os produtores têm que realizar aplicações de inseticidas até 26 vezes por ano para salvar suas colheitas de batatas das pragas. Os resultados dos cultivos em Toluca indicam que os tubérculos com genes RB são afetados pelo tição tardio em proporções que não chegam a 40% do total de plantas semeadas. Porém, o fruto resultante ainda é pequeno e pouco atraente para o consumidor.

“Faltam muitos testes para que a batata resistente ao tição chegue a ser comercializada e não é certo que as variedades derivadas agradem aos consumidores em todo mundo”, advertiram ao Terramérica Héctor Lozoya, um pesquisador da mexicana Universidade de Chapingo e encarregado de coordenar os testes com o gene RB no México. O especialista reconhece que o trabalho de Helgeson abre pela primeira vez na história a possibilidade real de controlar a praga sem o uso de produtos químicos. Caso isso se concretize, os países em desenvolvimento seriam os mais beneficiados, pois economizariam milhões de dólares em inseticidas.

Diversos estudos indicam que, desde a década de 60, a superfície semeada de batata no mundo em desenvolvimento cresceu mais do que a de qualquer outro cultivo de alimento. A guerra contra o tição tardio começou a tomar forma nos Estados Unidos na década de 50. Helgeson iniciou seus estudos nos anos 80, usando algumas variedades silvestres, entre elas as mexicanas, obtidas no Banco de Germoplasma dos Estados Unidos, o mais importante do mundo.

Entretanto, os cientistas mexicanos não tinham conhecimento desse trabalho. “Dos planos de Helgeson temos notícias só a partir dos anos 90, quando a batata já ocupava entre 65 mil e 70 mil hectares no México, pois décadas antes seu cultivo era incipiente”, disse Lozoya, que também é membro do Programa Internacional Cooperativo do Tição Tardio da Batata. Por incompatibilidade genética, a batata silvestre e a cultivada não podem ser cruzadas sexualmente e, portanto, parecia impossível transmitir a resistência ao tição tardio. Os norte-americanos lançaram, então, mão da engenharia genética e assim extraíram os genes da batata mexicana silvestre para fundi-los com os de variedade de batata comercial.

Helgeson está otimista a respeito das aplicações de sua descoberta. “As novas plantas provaram ser resistentes a tudo o que testamos até agora”, comentou. Embora admita que os novos tubérculos registram menores níveis de produção, não parecem ter alteração em seu sabor, nem representam riscos para a saúde humana. “A gente deve saber que não se trata de uma batata que contém um gene de um peixe ou de uma bactéria, mas que é um organismo geneticamente modificado com um gene de outra batata”, declarou.

“Afirmo que não há nada que faça pensar que as novas variedades de batata derivadas dos genes RB sejam inseguras, mas na ciência é preciso sempre fazer muitos testes”, acrescentou. Empresas multinacionais de sementes geneticamente modificadas, como a Monsanto, têm interesse nos genes RB. O Terramérica soube que essa companhia voltou sua atenção à descoberta de Helgeson, com a idéia de aplicá-lo aos tomates, também afetados pelo tição tardio.

* O autor é correspondente da IPS.

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