 | Recepção do centro de medicina mapuche. Crédito: Daniela Estrada | Reportagem Estado chileno financia serviço de medicina mapuche Por Daniela Estrada, enviada especial*
Os habitantes de uma região central do Chile podem escolher, em um mesmo centro de saúde do Estado, o tipo de atendimento médico: a medicina ocidental ou a mapuche.
NUEVA IMPERIAL, Chile, 21 de janeiro (Tierramérica).- Um hospital convencional e um centro de medicina mapuche, atendido por curandeiras que examinam a urina e receitam infusões, convivem em uma experiência única: o Complexo de Saúde Intercultural da região de Araucania, no sul do país. Maria Lefio, de 66 anos, caminha com dificuldade devido à artrose de seus dois joelhos, diagnosticada há seis anos em um consultório público. Seu único alívio eram os analgésicos. Porém, os comprimidos “já não faziam efeito”, disse ao Terramérica na sala de espera do centro de medicina mapuche, localizado na comunidade de Nueva Imperial, 670 quilômetros ao sul de Santiago.
É a terceira vez que Lefio vai em busca do “lawen” (remédio, na língua mapuzungun) que foi receitado por uma das 14 “machis” (curandeiras) que ali atendem: uma infusão de ervas de cor parda colocada em duas garrafas de plástico transparente. “Desde que comecei a tomar o lawen me sinto melhor, já não uso bengala”, garante Lafio, de ascendência mapuche, mas que nunca havia recorrido a uma machi. “Em minha comunidade não há machis (quase sempre mulheres), todas morreram e se perdeu a tradição”, explica Lafia, mãe de seis filhos.
As machis, e o “ngütamchefe” (consertador de ossos) atendem no centro médico de segunda a sábado, das 8h às 17h, e são eles que coletam as ervas e preparam as infusões, em troca de uma pequena retribuição monetária, paga pela Associação Indígena Newntuleaiñ, administradora do centro. Também participam 11 “lonkos” (chefes) que dão palestras de difusão cultural. Os pacientes, ou “kutranches”, devem cumprir quatro requisitos para serem atendidos de graça: apresentar cédula de identidade, estar inscrito no Fundo Nacional de Saúde, preencher uma carta de consentimento informado e levar a primeira urina do dia, embora as machis também possam diagnosticar à distância, apenas com a roupa do doente.
Segundo estatísticas de 2006, o povo mapuche está formado por 922.833 pessoas que representam 87,2% dos indígenas chilenos. Quase 30% deles residem em Araucania. O Complexo foi inaugurado em agosto de 2006 pela presidente Michelle Bachelet. À esquerda do prédio se ergue o novo hospital de medicina convencional da região, que serve oito comunidades, e à direita fica o centro indígena. Seus incentivadores foram os dirigentes mapuches de Nueva Imperial, mobilizados por mais de uma década para abrir espaços dentro do sistema de saúde. Por meio de um convênio anual renovável, o estatal Serviço de Saúde de Araucania Sul entrega ao centro os recursos financeiros para funcionar. Seu prédio foi cedido pelo Estado em comodato.
O dom de curar
As machis herdaram o dom de curar de seus antepassados. Segundo a cosmovisão mapuche, a doença ocorre quando a pessoa faz algo de ruim ou sente medo. O papel das curandeiras é restabelecer o equilíbrio entre corpo, mente e espírito. A machi Juana Licanqueo conta ao Terramérica que, antes de aceitar a proposta do centro, teve de consultar seu deus, Nguenechen. Embora goste de curar, esteve prestes abandonar o projeto. Um dia sentiu-se fraca, não queria levantar da cama. Pensou que seu deus a havia castigado. Porém, melhorou e voltou a ficar à disposição dos mais de 60 pacientes que chegam diariamente.
“Limitamos as consultas porque este projeto foi criado para os mapuches do campo, que não têm recursos”, disse ao Terramérica Doraliza Millalen, presidente da Associação. Entretanto, também atende indígenas urbanos e “chilenos”. “Se abríssemos as portas apenas aos chilenos não haveria espaço para os mapuches”, acrescentou rindo. Carmem Riffo, de 50 anos, chegou a esta medicina ancestral após mais de uma década de tratamento por depressão em hospitais públicos.
Riffo, que não é indígena, tem visões, perde os sentidos e carece de energia. Há cinco anos foi visitar uma machi, que lhe disse que era vítima de uma bruxaria. Iniciou um tratamento, mas não pode continuar pagando. Hoje recorre ao centro gratuito e diz sentir-se melhor, principalmente porque é compreendida.
Saúde intercultural?
Embora estejam juntos, o hospital e o centro mapuche estão longe de terem uma relação estreita, sobretudo no plano médico. Até agora, as duas chefias apenas elaboraram um formulário de derivações. As machis recomendam continuamente aos seus pacientes mais graves que se tratem com a medicina ocidental, mas só um médico do hospital faz o caminho inverso. No centro mapuche não se opera nem se faz partos, embora possua uma sala de hospitalização (amukon). “Se a construção desta sede demorou uma década, no melhor dos casos passarão outros dez anos para que possamos interagir mais estreitamente”, disse Millalen.
O primeiro ano de funcionamento não foi fácil. Sem contexto jurídico que reconheça a medicina indígena como tal, a Associação teve que se ajustar às normas administrativas e às leis trabalhistas vigentes, como qualquer entidade privada, o que se choca com os costumes mapuches, acrescenta Millalen. Isto levou à busca de formas criativas de cumprimento da lei. Por exemplo, as machis não aceitam ser contratadas nem entregar recibos de honorários, mas concordaram em assinar uma carta-compromisso de prestação de serviços.
Juana Calluil, diretora do Complexo, acredita que há mais desgaste em vencer esses obstáculos do que em desenvolver com força a medicina mapuche. Também houve rejeição de alguns mapuches. “A pobreza em que vivem é tão grande, a desesperança que existe é tão profunda, que muitos indígenas querem administrar este lugar. São cem pessoas que vivem deste convênio”, explica Millalen.
Avaliação governamental
Em 1996, o Ministério da Saúde colocou em marcha um programa especial para atender as necessidades das nove etnias reconhecidas pelo Estado e, em 2002, criou uma Unidade de Saúde e Povos Indígenas que promoveu iniciativas em diferentes serviços médicos do país. A experiência de Nueva Imperial é a mais importante. “Ainda estamos na fase de avaliações, mas temos obtido boa acolhida entre a população indígena, que nem sempre pode pagar o que as machis cobram em suas comunidades”, conta Cecília Moya, funcionária da Unidade.
Entretanto, vê dificuldades, como a escassez de ervas para elaborar o lawen, devido à plantação de pinus e eucaliptos exóticos da indústria florestal, à construção de infra-estrutura e às fumigações. O diretor da não-governamental Corporação Nacional de Desenvolvimento Indígena, Wilson Reyes, da etnia atacameña, assegura ao Terramérica que o governo trabalha em iniciativas legais de reconhecimento da saúde dos povos originários. Por outro lado, Millalen cobra do Estado o reconhecimento constitucional dos povos indígenas. Apesar da crescente difusão da medicina mapuche, Moya percebe nas comunidades um grande temor de ver institucionalizada sua forma de curar. “Pensam que sua tradição perderá sua natureza. Já perderam muito”, ressalta. * A autora é correspondente da IPS. |