Dialogues “O gás é nossa esperança, nosso futuro” Por Diego Cevallos
“Não somos golpistas, assumimos a defesa de nossos hidrocarbonos”, disse ao Terramérica Evo Morales, líder de uma revolta que colocou em xeque a democracia na Bolívia.
MÉXICO., (Tierramérica).- Um recurso natural, o gás, está na origem de um conflito que mancha de sangue e faz tremer a institucionalidade democrática na Bolívia. O movimento de oposição é liderado por um indígena aymara, Evo Morales, de 43 anos, que afirma que defender a propriedade “do povo” sobre o gás é o único caminho para superar a pobreza. Contudo, o que começou em setembro como uma rejeição camponesa ao plano oficial de vender gás para os Estados Unidos e o México derivou em uma revolta exigindo a renúncia do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, acusado da morte de umas 70 pessoas em sua tentativa de controlar os protestos.
Encurralado, o presidente anunciou no dia 15 um referendo sobre o gás, mas os camponeses rejeitaram a proposta insistindo em sua renúncia. “Não cederemos. O gás é nossa esperança, é nosso futuro” e não deve ser entregue às multinacionais como quer o governo, disse Morales. Morales, ex-candidato a ponto de ganhar a presidência em 2002 pelo Movimento ao Socialismo (MAS), conversou por telefone com o Terramérica, de La Paz.
- Segundo diversos estudos, o projeto para exportar gás com o consórcio Pacific LNG representaria para a Bolívia mais de US$ 260 milhões. Por que se opuseram?
- Não podemos continuar sendo um país que vende matéria-prima sem industrializar. Vender o gás nas condições que o governo quer, quando estiver nas mãos das multinacionais beneficiará a Bolívia com apenas US$ 50 milhões por ano. Mas se, como país, recuperássemos, industrializássemos e exportássemos o gás, a Bolívia ganharia US$ 1,3 bilhões anuais. O gás é nossa esperança, o gás é nosso futuro. É por isso que os protestos chegaram ao nível atual, pois o povo assumiu a defesa de seus hidrocarbonos.
- Que tipo de manejo alternativo propõem para o gás?
- O povo quer que o governo devolva o gás e os hidrocarbonos aos bolivianos. Isso passa pela revisão de algumas leis, revogação de decretos e, sobretudo, pela revogação de contratos com as multinacionais do petróleo.
- Trata-se apenas do gás? Agora exigem a mudança do modelo econômico e a renúncia do presidente, o que faz a democracia cambalear.
- Defender a democracia é pedir a renúncia de Sánchez de Lozada, consolidar a democracia é recuperar os hidrocarbonos. Imagine, a Constituição diz que os hidrocarbonos são propriedade do Estado boliviano, mas o governo veio com um decreto que diz que as multinacionais adquirem o direito de propriedade dos hidrocarbonos. Isto é inconstitucional. Se falamos da institucionalidade, é o povo boliviano organizado que defende a institucionalidade e a democracia.
- O governo os acusa de golpistas e sediciosos e afirma que o gás é apenas um pretexto.
- O único golpista é Sánchez de Lozada, o único sedicioso é ele, por tantos mortos à bala que deixou, por tanta repressão contra um movimento legítimo.
- Também são acusados de serem financiados por grupos subversivos do Peru e da Colômbia.
- Onde estão as provas? Não as mostraram.
- Não há outro caminho que não a renúncia do presidente?
- A resposta ao nosso pedido foi bala, morte, feridos, tanques, helicópteros, matanças. É a carnificina de Sánchez de Lozada. Por isso o povo pede que se vá. Não há retorno.
- Se o presidente renunciar, o que virá depois?
- O povo decidirá quem será o novo presidente dentro da legalidade. Vamos denunciar Sánchez de Lozada nacional e internacionalmente por genocídio e crimes de lesa humanidade. Ele e vários ministros e ex-ministros. Queremos ver esses repressores na cadeia de segurança máxima.
- Acredita que dobrarão o presidente? Quanto tempo pensa que lhe resta no cargo?
- Tem horas para deixar o cargo. O governo está apostando no cansaço do povo, mas estou convencido de que não haverá nenhum cansaço. Mineiros, camponeses, todo o povo está se levantando para vingar estes assassinatos e para defender seus recursos naturais. Quero dizer a Sánchez de Lozada e à sua família que não prejudiquem o país, que não continuem matando. Que renuncie de uma vez, que deixe a presidência para que a paz e a tranqüilidade voltem à Bolívia. * |