Reportagem Coro desafinado abre a Cúpula da Terra Por Anthony Stoppard
O Fórum Global Rio+10 é uma dispersa Torre de Babel onde milhares de ativistas buscam uma linguagem comum para suas reivindicações ecologistas e contra a pobreza.
JOHANNESBURGO, (Tierramérica).- As contradições e a diversidade atentam contra o propósito dos ativistas reunidos até 4 de setembro na cidade sul-africana de Johannesburgo: influir na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (CMDS) com um firme pronunciamento contra a pobreza e a favor da natureza. O Fórum Global da Sociedade Civil é uma oportunidade única para que organizações de todo o mundo se encontrem, troquem experiências e exerçam pressões nas decisões da Cúpula da ONU, que acontece dez anos depois da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, do Rio de Janeiro.
Porém, as organizações não-governamentais, que iniciaram suas sessões preliminares no dia 20 passado, sustentam posições contraditórias sobre os tópicos principais. “O primeiro desafio é superar a dispersão geográfica dos delegados, e depois analisar se as diferenças são táticas, e, portanto, superáveis, ou se se devem a questões de princípios”, explicou o analista político Victor Munnik, integrante do Secretariado da Sociedade Civil que organizou o encontro. Problemas logísticos e discrepâncias políticas levaram vários grupos a se instalarem em lugares distantes.
A coalizão Movimentos Sociais Indaba, por exemplo, tem sua sede perto de onde acontece o Fórum Global, e se propõe realizar reuniões e protestos à margem do processo conduzido pela ONU, o qual considera dominado por governos e grandes empresas que não contribuirão com soluções ao desenvolvimento sustentável. Um pouco mais longe está o acampamento do sul-africano Movimento de Povos Sem-Terra, destinado aos que buscam um único assunto: o direito da população à terra. Este movimento decidiu ficar eqüidistante do Fórum Global e de Indaba para evitar que ambos ignorem sua própria campanha.
Dezenas de milhares de ativistas devem sintetizar suas propostas em uma declaração dirigida a cerca de cem chefes de Estado e de governo presentes à Cúpula, que deverá levá-la em consideração ao aprovar o plano de ação. “É muito difícil prever se poderemos chegar a um acordo”, disse Munnik. Devemos manter “diversidade na solidariedade e solidariedade na diversidade” e aceitar “quantas pudermos”, para que o Fórum Global consiga uma posição unificada com amplo apoio político, acrescentou. O acordo não é impossível apesar da incrível e colorida diversidade de organizações civis, ecológicas, comunitárias e de desenvolvimento, afirmou. Ele deu como exemplo a tentativa de superar diferenças de grupos ambientalistas com acentuados contrastes políticos como Greenpeace, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e a Rede de Justiça Ambiental. “Estão trabalhando juntos de um modo nunca visto”, disse Munnik.
Grupos de jovens, mulheres e povos indígenas realizaram encontros prévios para atingir posições que reflitam interesses e preocupações comuns e que serão incluídas na declaração do Fórum. A grande questão que enfrenta a sociedade civil nesta instância é decidir se é possível a colaboração com organismos financeiros internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Mas, além disso, deve encontrar caminhos para defender os convênios internacionais já alcançados para preservar a natureza e aliviar a pobreza, e pressionar por maior assistência ao desenvolvimento e por ampliar os padrões ambientais internacionais, disseram alguns ativistas.
Também existem tensões entre os que querem colocar o eixo do Fórum na proteção dos recursos naturais e os que garantem que a única forma de proteger o planeta é priorizando o desenvolvimento social e econômico das comunidades. Ativistas de um e outro lado dizem ainda que quando a sociedade civil conseguir forjar uma ampla e aceitável declaração política, conseguirá mais do que possam estar dispostos a conceder os governos reunidos na Cúpula. Apesar das dificuldades e discordâncias, o Fórum Global e outros encontros paralelos à Cúpula são um contexto privilegiado para debater de uma forma que não permitem as regras diplomáticas dos encontros oficiais, afirmou o representante na África do Sul da União Mundial para a Natureza (UICN), Saliem Fakir. Só isso faz com que o Fórum seja crucial para chegar-se a soluções para os desafios do desenvolvimento sustentável, concluiu. * O autor é correspondente da IPS. |