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Margarita Mbyvângi, presidente do Instituto Paraguaio do Indígena.
Crédito: Gentileza do Instituto Paraguaio do Indígena
Dialogues
Ministra indígena paraguaia pede tempo
Por Diego Cevallos

A paraguaia Margarita Mbyvângi enfrenta o desafio de ser a primeira mulher e aborígine a conduzir a política indigenista de seu país.

MÉXICO, 15 de dezembro (Tierramérica).- Margarita Mbyvângi, a primeira indígena com status ministerial do Paraguai, lida com acusações de inoperância vindas sua própria gente. Porém, pede tempo para cumprir sua meta: que ninguém volte a sofrer a escravidão e a expulsão que a golpearam durante quase 20 anos. Mbyvângi, da etnia ache e 47 anos, assumiu em agosto como presidente do Instituto Paraguaio do Indígena, encarregado pelo governo do presidente Fernando Lugo de lutar contra a pobreza e a exclusão de pouco mais de cem mil aborígines desse país. Seu sonho é que seu “povo de irmãos” obtenha a propriedade de seus territórios, receba orientação sobre seus direitos e conheça leis internacionais cuja existência ignora.

Em entrevista por telefone ao Terramérica, de Assunção, Mbyvângi assegurou contar com total apoio presidencial e disse acreditar que poderá superar os protestos de grupos indígenas. Desde meados de novembro, alguns nativos se mobilizaram em Assunção para pedir sua demissão, pois consideram que Mbyvângi não deu respostas às suas reclamações. “Quero que sejamos verdadeiramente livres”, afirmou Mbyvângi, que tenta acabar seus estudos. Aos cinco anos, foi tirada de sua terra e vendida como empregada doméstica. Aos 20, decidiu regressar à floresta e ao seu povo. Anos depois, se converteu em cacique de seu povo e nas últimas eleições candidatou-se a senadora. TERRAMÉRICA: Cada vez há mais grupos indígenas que a acusam de ineficiência. O que tem a dizer sobre isso?

MARGARITA MBYVÂNGI: Sou a primeira ministra indígena do Paraguai e a primeira mulher a ocupar este cargo. Continuarei enquanto tiver o apoio do presidente Fernando Lugo. Nunca fiz política partidária, a política do jogo sujo, e agora peço paciência aos que protestam, para chegar a cumprir os objetivos que temos.

TERRAMÉRICA: Quais são esses objetivos? Em que situação estarão os indígenas paraguaios quando sua gestão terminar?

MARGARITA MBYVÂNGI: Busco chegar ao meu povo, que possamos obter a documentação de terras que meu povo não tem e orientar e capacitar em temas de políticas indígenas, ter conhecimento de leis internacionais que não conhecemos. Quero lutar até o final por nossos direitos. Em outros governos nunca tivemos participação, direito de entrar em uma universidade, direito à saúde nem à organização. Também lutarei pelo meio ambiente, que é o principal problema dos povos nativos. Quando o ambiente se acaba, somos os mais prejudicados. Quero ajudar meu povo a se organizar, a defender seus direitos, a conhecer convênios internacionais para não ser manipulado por ongs. Que sejamos livres verdadeiramente.

TERRAMÉRICA: Sente que é parte dessa corrente de protagonismo indígena que representam o presidente da Bolívia, Evo Morales, os nativos colombianos com suas recentes mobilizações e a força política dos aborígines equatorianos?

MARGARITA MBYVÂNGI: Sinto-me parte dessa luta latino-americana que estamos ganhando, porque é o momento de reivindicar que também somos capazes de governar e demonstrar nossa inteligência. Os indígenas da América Latina são honestos e sempre vamos levar essa bandeira. Agora que estamos nas instituições temos de demonstrar que somos diferentes.

TERRAMÉRICA: Considera que o protagonismo indígena dos últimos anos mudou sua situação de exclusão?

MARGARITA MBYVÂNGI: Não. Creio que nesta época continuou piorando. Sei que nossos antepassados não sentiam fome nem frio, não temiam doenças, não tinham necessidades de nada. Agora dormimos na rua, não temos casa nem terra, somos despojados de nossa natureza. Estão contaminando água e ar, e meus irmãos morrem por isso. Se não lutarmos agora por nossas vidas, pela água e pelo ambiente, tudo ficará ainda pior.

TERRAMÉRICA: A senhora viveu uma situação de exclusão. Qual foi sua experiência?

MARGARITA MBYVÂNGI: Nos anos 60 e 70, meu povo ache foi perseguido, mataram muitos, porque vivíamos em isolamento. As crianças cresciam na montanha, esquecidas. Eram pegas e vendidas a outras pessoas. Entre essas crianças estava eu. Tinha cerca de cinco anos quando me venderam. Até os 20 anos estive sem comunicação com minha família, sem saber nada de meu povo ache, mas a partir dessa idade decidi buscá-lo e voltei à minha comunidade e agora sou líder de uma de minhas comunidades e assim comecei a luta de meu povo. Minha vida foi difícil, fui uma espécie de escrava.

TERRAMÉRICA: Que importância dá à aprovação da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e à vigência, há quase duas décadas, do convênio 169 da Organização Internacional do Trabalho?

MARGARITA MBYVÂNGI: Sobre esses convênios não sabemos muito. Nunca pudemos dar opiniões sobre isso. Com esses convênios vemos que o governo nunca agiu. Por exemplo, aqui nunca tivemos direito à terra. Nem sabemos quem fez esses convênios, não fomos ouvidos. Eu não vi os convênios antes. Mas, agora, os avaliamos.

* O autor é correspondente da IPS.

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