 | A elaboração da massa para fazer tortilhas contamina grande quantidade de água. Crédito: Verônica Diaz Favela/IPS | Destaques Cientistas reinventam a tortilha de milho Por Verônica Diaz Favela
Cientistas mexicanos trabalharam para tornar
sustentável a nixtamalização, a técnica ancestral para preparar a
massa das tortilhas de milho.
MÉXICO, 1º de março (Tierramérica).- O processo de elaboração da tortilha de milho,
saboroso e milenar alimento do México e América Central,
contamina grande quantidade de água e consome muita energia.
“Há alguns anos, um grupo de proprietários de moinhos veio
nos perguntar se havíamos feito algo nesse sentido e
consideramos que, se havia milhares de moinhos no país, o
problema era grande e era preciso fazer algo”, disse ao
Terramérica Gerardo Ramírez Romero, pesquisador do
Departamento de Biotecnologia da Universidade Autônoma
Metropolitana (UAM) do México. Assim nasceu a pesquisa “Os
moinhos de nixtamal, para uma empresa sustentável”,
acrescentou.
A tortilha de milho é consumida por todas as camadas sociais
deste país e, como o pão, usada para acompanhar quase todos
os alimentos. Também é a base dos tacos. No moinho, o milho é
cozido em água com cal e depois moído para produzir a massa
das tortilhas, o nixtamal, mais suave e úmido do que a plastilina.
Este processo, chamado nixtamalização, foi desenvolvido pelos
indígenas pré-hispânicos. Para fazer uma tortilha são
necessários 30 gramas de massa, faz-se uma bola que é
trabalhada e depois amassada até formar um círculo de 14
centímetros de diâmetro. Para cozinhar é colocada em uma
superfície bem quente.
O cozimento do milho com cal produz uma combinação de
sólidos rica em amido, celulose e cálcio, conhecida como
nejayote, que é jogada diretamente para drenagem, explicou
Ramírez Romero. Para cada quilo de milho usa-se dois litros de
água. E um moinho pequeno pode contaminar mil litros de água
por dia. No México, há cerca de 20 mil moinhos. Graças à
primeira faz da pesquisa da UAM – que durou três anos –, os
especialistas reduziram em 80% a contaminação da água,
retirando os sólidos e produzindo mais massa com eles.
O passo seguinte busca usar energia solar para aquecer a água
onde o milho é fervido, reduzindo o consumo de gás, disse ao
Terramérica Juan José Ambriz García, chefe do Departamento de
Engenharia de Processos e Hidráulica da UAM. Mas o Sol permite
apenas esquentar água até 50 graus, enquanto o milho é cozido
a 90 graus. A solução temporária é pré-aquecer a água com
energia solar e aumentar sua temperatura com gás, explicou.
Dessa forma os moinhos economizariam até 40% de gás. No
futuro, segundo Abmriz, uma mudança no desenho do processo
tornará desnecessário esquentara a água até 90 graus.
No momento, o uso de energia solar para esquentar água em
um moinho só é possível em laboratório. Falta desenvolver o
maquinário acessível para os empresários da massa e que
também permita que economizem eletricidade, o que levará
anos. Atualmente, depois do milho, o maior custo dos moinhos
é a energia. Um moinho médio – que forneça massa para dez
fabricantes de tortilhas – gasta US$ 2,3 mil mensais em energia.
O ideal seria distribuir esta tecnologia por meio do programa
“Minha Tortilha”, criado pelo governo federal para que os donos
de moinho comprem novos equipamentos, afirmou. Este tipo de
moinho “é uma contribuição tecnológica do México para o
mundo, mas o crítico é que ficaram como há cem anos”,
destacou Ambriz.
No passado, os moinhos eram subsidiados pelo Estado,
recordou a antropóloga da UAM Yolanda Hernández Franco. Na
década de 90, ainda recebiam milho, gás, eletricidade e água a
baixo custo. Nessa época, as fábricas de tortilhas e os moinhos
eram muito visitados por inspetores, que, na realidade,
dedicavam-se apenas a cobrar propinas, afirmou. Quando
acabaram os subsídios para a indústria da tortilha,
desapareceram os inspetores e a corrupção, mas os
proprietários tiveram “de enfrentar um mundo globalizado”,
sem saber como agir de forma eficiente, disse ao Terramérica a
antropóloga. Se “fossem aplicadas as normas de contaminação,
não haveria moinho que se salvasse”, acrescentou.
Na primeira etapa da pesquisa, foram estudados moinhos da
capital, e na seguinte foram analisados outros em vários
Estados. O moinho costuma ser um negócio familiar herdado de
geração em geração, que fornece massa a um grupo de
fabricantes de tortilhas, quase sempre do mesmo dono. Os
maiores abastecem mais de 20. Em geral, o moinho inclui uma
fábrica de tortilha. As pessoas chegam e fazem fila para
comprar suas tortilhas por menos de um dólar o quilo.
Segundo uma pesquisa da produtora de farinha de milho
Gruma, cada um dos 107 milhões de mexicanos consome 80
quilos de tortilhas por ano. Não há dados confiáveis sobre o
consumo familiar diário, mas acredita-se que nos últimos anos
caiu entre 25% e 30%, devido ao abandono da dieta tradicional e
pelo aumento dos preços. Felipe Galindo é dono de um moinho
onde chegou aos dez anos para trabalhar como varredor. Há
mais de 35 anos a empresa fornecia para 25 fabricantes e hoje
para apenas três, disse. Ele acredita que a queda se deve à fama
de que se trata de alimento que engorda, embora “tenha menos
calorias do que uma fatia de pão”, assegurou. Segundo Ambriz,
“a tortilha é um excelente alimento” e, além disso, “a
combinação pré-hispânica com erva ou alguma proteína de
outro tipo, inclusive insetos, é uma excelente dieta”. * |