 | Uma rua de Kingston após o terremoto de 1907. Crédito: Cortesia da Biblioteca Nacional da Jamaica | Destaques O Caribe treme Por Kathy Barrett
O terremoto haitiano foi uma lembrança de que o pitoresco Caribe é uma das zonas geológicas mais ativas do planeta.
KINGSTON, 22 de março (Tierramérica).- Conhecida por seus furacões, a região que se estende das Ilhas Caimã, no oeste, até a cadeia de ilhas de Barlavento e Sotavento, no leste, se assenta em um dos principais cinturões sísmicos terrestres. Com sete mil ilhas, ilhotas e recifes, o Caribe tem faixas marinhas de grande profundidade e zonas de falhas tectônicas, cujas pressões produzem terremotos como o que afetou o Haiti no dia 12 de janeiro. “O Caribe é muito complicado. Tem uma variedade de placas tectônicas em uma região muito reduzida”, afirma o geofísico Jian Lin, da Instituição Oceanográfica Woods Hole, com sede nos Estados Unidos.
O furacão que derrubou Porto Príncipe, capital haitiana, foi um dos mais destrutivos do Caribe e levou os governos vizinhos a se mobilizarem para a prevenção. Segundo Joan Latchman, especialista em Sismologia do Centro de Pesquisas Sísmicas da University of the West Indies (Universidade das Índias Ocidentais), os tremores fortíssimos são parte da história caribenha. “É um perigo real... o que vimos continuará porque as placas continuam se movimentando”, disse.
A Jamaica teve sua cota. Em 1692, a então capital Port Royal, a leste de Kingston, foi destruída por um terremoto. O que resta dela é uma tranquila aldeia de pescadores. Em 1907, foi a vez de Kingston. A associação de engenheiros da Jamaica afirma que pelo menos 70% de suas estruturas seriam gravemente afetadas ou destruídas se ocorrer um terremoto como o de 27 de fevereiro no Chile, de 8,8 graus na escala Richter. O código de construção tem 102 anos e foi redigido um ano depois do terremoto de 1907.
Em 1983, essa norma foi revista, mas o novo texto não foi completado nem obteve força legal, explicou ao Terramérica o engenheiro Noel DaCosta. A tarefa de redigir um novo código foi retomada em 2003 e já está finalizada. “O que queremos é um acordo para transformá-lo em lei, do contrário voltaremos à situação de 1983”, disse. Contudo, a norma de 1908 estabelece que o aço deve fazer parte das estruturas de construção civil. Porém, muitas construtoras estrangeiras aplicam suas próprias normas de construção, segundo DaCosta.
Para o veterano ambientalista e jornalista John Maxwell, o verdadeiro risco é a localização dos edifícios jamaicanos. “A maior parte da planície de Liguanea – onde fica Kingston – é um depósito de argila aluvial com muita água. Boa parte dessa formação é muito instável”, disse ao Terramérica. Então, o problema da Jamaica “não é os prédios desmoronarem, mas afundarem no solo. Poderiam ser tragados”, acrescentou Maxwell.
O diagnóstico de Latchman para o Caribe é “grande densidade populacional em uma zona de tremores e com más construções”. Por isso, recomenda olhar o que faz o Japão. Nesse país há “terremotos de grande magnitude com mais regularidade do que aqui, mas não se vê este tipo de desastre, porque aprenderam e adaptaram seu desenvolvimento a esse perigo”. Nenhuma ilha do Caribe oriental está a mais de 200 quilômetros de zonas que sofrem grandes terremotos e danos consequentes.
Em 2004, esta realidade chegou à Dominica. No dia 21 de novembro um terremoto causou grandes deslizamentos de lama em uma área que havia sofrido intensas chuvas. Agora que o Haiti chora a morte de mais de 220 mil pessoas, o governo de Dominica decidiu reformar suas normas para construções. “Nosso código está destinado sobretudo a suportar furacões. Agora tentamos dar atenção à prevenção de desmoronamentos por tremores de terra, mas construir prédios à prova de terremotos exige uma enorme tecnologia e é muito caro”, disse ao Terramérica o ministro do Interior, Charles Savarin.
Em Trinidad e Tobago, a situação das construções civis pode ser tão ruim como a do Haiti. “Se formos atingidos por um furacão de magnitude 8, três quartos dos edifícios viriam abaixo”, segundo o acadêmico em Engenharia Civil Richard Clarke, da University of West Indies. A indústria petroquímica, que domina a economia de Trinidad, seria outra grave vítima. O chefe do escritório de prevenção e manejo de desastres, George Robinson, prevê grandes explosões e violentos incêndios por causa dos vazamentos de gás natural das tubulações e gasodutos que atravessam a ilha. Isso também criaria “nuvens de substâncias tóxicas”, afirmou. Embora não haja estimativas oficiais, Clarke calcula que morreriam pelo menos 30 mil pessoas e o número de feridos chegaria a dezenas de milhares.
As Ilhas Caimã, que têm o menor risco, contam, há três anos, com uma rede de quatro estações de controle sísmico. As autoridades locais preveem que este sistema, instalado em locais seguros, se conecte no futuro a uma grande rede caribenha de monitoramento sísmico que forneça informação imediata. Nos últimos 500 anos, foram registrados 105 maremotos no Caribe e áreas adjacentes. Hoje, com 20 milhões de caribenhos vivendo neste destino turístico e um grande terremoto a cada 50 anos, os cientistas alertam que não se trata de dizer se ocorrerá, ou não, um grande tsunami, mas quando.
A 5ª Reunião do Grupo Intergovernamental de Coordenação do Sistema de Alerta Contra Tsunamis e Outras Ameaças Costeiras no Caribe e Regiões Adjacentes, realizada em Manágua entre 13 e 17 deste mês, decidiu organizar uma simulação de maremoto em março do ano que vem. * A autora é correspondente da IPS. |