 | Trabalhador mostra as espigas das plantas de amaranto. Crédito: Emilio Godoy/IPS | Reportagem Amaranto no resgate da nutrição mexicana Por Emilio Godoy - IPS/IFEJ
O amaranto regressa do esquecimento com o poder nutritivo necessário para mitigar os dois maiores males alimentares do México moderno: desnutrição e obesidade.
TEHUACÁN, México, 17 de maio (Tierramérica).- O que tem a ver a filosofia com a diversidade agrícola? Em 1980, o filósofo Raúl Hernández decidiu abandonar a capital do México para se dedicar ao desenvolvimento social, e assim chegou ao município de Tehuacán, no Estado de Puebla, sul do país. Hernández, saído da jesuíta Universidade Ibero-Americana, e sua mulher Gisela Herrerías, uma pedagoga formada na estatal Universidade Nacional Autônoma do México, comprovaram que a água era um assunto crítico em Tehuacán, e bastou apenas um passo para que, em 1983, encontrassem no amaranto uma solução múltipla.
A reflexão e a educação passaram a fazer parte substancial de seus esforços. Vinte e sete anos depois, a organização não governamental Alternativas e Processos de Participação Social trabalha, em uma área onde confluem três Estados (Puebla, Guerrero e Oaxaca), pela conservação da água e pelo desenvolvimento deste valioso cereal nativo. “Primeiro foi o investimento agrícola para incrementar a fertilidade dos solos, fazer composto e respeitar a biodiversidade”, disse ao Terramérica Hernández, diretor-geral da ONG.
Mas o assunto ganhou corpo. Com a supervisão da organização, o grupo cooperativo Quali procura, desde 1994, agregar valor ao amaranto orgânico semeado em cerca de 500 hectares certificados por 1.100 agricultores, indígenas mixtecos, popolocas e nahuas desta região semiárida. Para este ano, o pagamento será de US$ 1,4 por quilo de amaranto, “mais que o preço de mercado”, segundo o diretor-geral da Alternativas.
Os grãos são vendidos ao setor industrial para elaboração de cereal, farinha, doces, biscoitos e bebidas. A fábrica, na cidade de Tehuacán, começou a funcionar em 2009, com investimento de US$ 2,3 milhões, e processa cem toneladas de grão por ano. “Tivemos de dar ênfase especial ao cuidado, à proteção higiênica e garantir a inocuidade do produto”, contou Hernández.
Os alimentos são consumidos e vendidos no México e exportados para Itália, Espanha e em breve para a Suíça. A tecnologia desenvolvida foi reconhecida com muitos prêmios: Slow Food pela Defesa da Biodiversidade, em 2002, Mérito Ecológico, em 2005, e Prêmio Nacional Agroalimentar, em 2008, entre outros.
O amaranto pertence ao gênero Amaranthus, que inclui 60 espécies. Pelo menos duas delas, cruentus e hipochondriacus, são originárias do México e valorizadas por seus grãos e suas folhas comestíveis, ricas em ferro. O grão, cultivado há cinco mil anos por povos aborígines, contém o dobro de proteínas do milho e do arroz, além de ser rico em vitaminas A, B, C, B1, B2, B3, ácido fólico, niacina, cálcio, ferro e fósforo. É uma “proteína de alto valor biológico, o que é único e extraordinário. Pode ser cultivado amplamente, seu processamento é simples e tem uma composição nutritiva muito adequada”, disse Abelardo Ávila, pesquisador do Instituto Nacional de Nutrição.
Em 1975, o informe “Underexploited Tropical Plants with Promising Economic Value”, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, colocou o amaranto em uma lista de 36 vegetais tropicais ignorados e mais promissores do mundo. Ao longo da história da humanidade, muitos alimentos valiosos se perderam. Só no último século, a diversidade dos cultivos caiu 75%, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. O amaranto, alegria ou “huautli” (caruru, em língua náhuatl), foi combatido pela conquista católica espanhola, que o via como símbolo do paganismo, e acabou quase esquecido neste país que hoje, com 107 milhões de habitantes, sofre dois males paradoxais: obesidade e desnutrição.
O México lidera a lista de nações com obesidade infantil e ocupa o segundo lugar em obesidade adulta, depois dos Estados Unidos. Mas a baixa estatura, sinal de desnutrição crônica, foi registrada em 888.400 mulheres e em 714.900 homens, com idades entre 12 e 17 anos, pela Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição realizada em 2006. Há, ainda, 832.664 crianças desnutridas, segundo o Relógio da Desnutrição, um medidor diário do Capítulo Mexicano da Sociedade Latino-Americana de Nutrição. E cerca de oito mil crianças morrem anualmente por problemas alimentares.
“Diante da obesidade e da sobrealimentação urbana, e à custa de uma má nutrição nessas áreas, diminuiu a desnutrição infantil, mas em regiões pobres o ritmo de redução é muito lento”, disse Ávila ao Terramérica. Pesquisas feitas em 2009 por sua equipe detectaram desnutrição severa em 80% das crianças estudadas nos municípios mais pobres de Chiapas, Guerrero e Oaxaca. Uma ingestão diária de 25 gramas de amaranto no período de cinco meses conseguiu combater com sucesso essa desnutrição, comprovaram Ávila e seus pesquisadores em comunidades de Puebla, Oaxaca e Guerrero.
Resistente à seca, às altas temperaturas e às pragas, o cereal está pronto para ser colhido em seis meses, entre maio e novembro. Primeiro germina em viveiros e depois é levado para um local definitivo, onde cresce com suas folhas largas e abundantes e suas espigas e flores púrpura, laranja, roxo e dourada. Puebla é o maior produtor mexicano de amaranto, seguido por Morelos, Tlaxcala e a capital do país. Contudo, ainda são apenas três mil hectares. O rendimento médio, de 1,5 toneladas por hectare, é muito superior ao do feijão (0,7 tonelada), segundo o Ministério da Agricultura, Pesca e Alimentação.
Nas mesmas regiões do amaranto, a organização Alternativas trabalha na recuperação de bacias hídricas, resgatando técnicas ancestrais – terraços, canais, represas e regeneração vegetal – e introduzindo a moderna engenharia e a informação digital. Embora o amaranto seja um ingrediente “versátil” na cozinha, como farinha ou cereal em saladas, sobremesas, tortilhas ou biscoitos, “não existe um sistema produtivo para que se torne um alimento acessível, quando deveriam ser produzidas toneladas”, afirmou Ávila.
As autoridades nacionais trabalham em um plano de promoção, como os que existem para o milho e o café, com ajuda estatal para as cadeias de produção e venda. “Cada vez se ouve mais sobre o amaranto. As pessoas têm maior conscientização com sua alimentação e cada vez se conhece mais propriedades nutritivas”, disse Hernández. Agora, o governo da capital quer que as Nações Unidas o declarem patrimônio da humanidade. Talvez assim se evite o esquecimento e a extinção. * Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre biodiversidade produzidas por IPS, CGIAR/Bioversity International, IFEJ e Pnuma/Convênio sobre a Diversidade Biológica, membros da Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://ww |