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Trabalhadoras de uma empresa chilena de criação de salmão
Crédito: Cortesia Fundação Terram
Reportagem
Indústria do salmão não se dá por vencida
Por Daniela Estrada

No Chile, a criação descontrolada de espécies estrangeiras de salmão gerou uma reação em cadeia que colocou em dúvida a salmonicultura deste país. Agora a indústria volta à carga

SANTIAGO, Chile, 9 de agosto (Tierramérica).- A antes vigorosa indústria de criação de salmão do Chile tenta se colocar de pé, após a demolidora crise sanitária que reduziu pela metade sua produção. Porém, sua viabilidade no longo prazo continua em debate. “A salmonicultura se expandiu rapidamente, sem um marco regulatório e de controle adequado para evitar e antecipar problemas ambientais ou o desenvolvimento de doenças transmissíveis”, explicou ao Terramérica Carlos Chávez, doutor em Economia Ambiental e Recursos Naturais da Universidade de Concepción.

O Chile é o segundo produtor mundial de salmão em criadouro, atrás da Noruega, sobretudo de salmão do Atlântico (Salmo salar), além de truta (Oncorhynchus mykiss) e salmão prateado (Oncorhynchus kisutch). Depois de introduzir estas espécies estrangeiras, na década de 80, a indústria cresceu exponencialmente até meados de 2007, quando o vírus da anemia infecciosa do salmão (conhecido pela sigla ISA) começou a se propagar pelos centros de cultivo das regiões de Los Lagos, Aysén e Magallanes.

O vírus forçou as empresas a colherem antecipadamente os peixes e fechar as instalações para descanso das águas. O pior momento foi em janeiro de 2009. Segundo estimativas do setor, em 2007 e 2008 foram produzidas cerca de 650 mil toneladas e para este ano a estimativa é de uma produção entre 250 mil e 300 mil toneladas. Dos 55 mil empregos diretos e indiretos, que essa indústria gerava em seu melhor momento, restam apenas 25 mil.

No ano passado, as exportações de salmão chegaram a US$ 2,068 bilhões, segundo o Serviço Nacional de Aduanas. Quase toda a produção é exportada. “A situação é catastrófica, com ex-trabalhadores perdendo suas casas, sem dinheiro para pagar a escola dos filhos e inclusive comer”, disse ao Terramérica Javier Ugarte, presidente da Confederação Nacional de Trabalhadores na Indústria do Salmão.

Segundo informação entregue pelo Serviço Nacional de Pesca ao Terramérica, em Los Lagos são 283 centros de cultivo em operação, 186 em Aysén, e em Magallanes, 13. O último informe sanitário dessa instituição também mostra que apenas oito centros são suspeitos de contágio pelo vírus ISA. A resposta foi uma reforma na Lei de Pesca e Aquicultura de 1991, promulgada em abril deste ano, para regular, entre outras coisas, entrega, operação e caducidade das concessões, freando momentaneamente a expansão em algumas regiões.

“Não é uma lei de proteção ambiental nem de benefício para os trabalhadores. É uma lei para dar viabilidade a uma indústria em crise, para apoiar os empresários do salmão”, disse ao Terramérica a diretora-executiva da Fundação Terram, Flavia Liberano, que, no entanto, reconheceu “alguns avanços”. “No longo prazo, essa lei pode gerar melhores condições ambientais e sanitárias, porque fornece mais regulamentações e capacidade de fiscalização. A questão é como será executada”, alertou.

A lei encontrou resistência entre os pescadores artesanais e ecologistas porque permite às indústrias do salmão hipotecar suas concessões para obter créditos bancários. Isto, alertam, significa a “privatização” do mar, um bem nacional de uso público. O governo direitista de Sebastián Piñera, que assumiu em 11 de março, avança na elaboração dos 15 regulamentos necessários para colocar em prática a lei, afirmou ao Terramérica o chefe da Divisão de Aquicultura da Subsecretaria de Pesca, José Miguel Burgos.

Há um ano, acrescentou José Miguel, está em marcha “um plano de uso racional de antibióticos” que inclui a atualização do registro desses medicamentos, o controle das empresas que os incorporam aos alimentos dos salmões e o fortalecimento da fiscalização. Uma das principais críticas à indústria se refere à aplicação excessiva e descontrolada de antibióticos.

“As densidades de salmão permitidas nas jaulas foram regulamentadas”, e ainda este ano estará pronta uma norma “fixando os padrões de segurança adequados para estas estruturas”, acrescentou José Miguel. O objetivo é evitar a fuga maciça de peixes que se transformam em predadores de outras espécies. Além disso, está sendo medida a capacidade de carga dos ecossistemas pela alimentação e pelos dejetos orgânicos dos salmões no estuário de Reloncaví, acrescentou.

Outras enfermidades que afetam o setor são o parasita Caligus rogercresseyi e a Síndrome Richettsial Salmonídeo, de origem bacteriana, que neste segundo semestre passará a ser controlada, anunciou José Miguel. Também é temido o surgimento da doença do pâncreas, outro vírus agressivo. Os empresários asseguram que fizeram uma “autocrítica” e adotaram voluntariamente padrões mais rígidos. Contudo, a Associação da Indústria do Salmão, SalmónChile, não respondeu às consultas feitas pelo Terramérica.

“A indústria não vai resistir se não incorporar ferramentas biotecnológicas”, disse ao Terramérica o acadêmico Rodrigo Vidal, da Universidade de Santiago, que obteve, com outros colegas, fundos públicos para criar um Centro Biotecnológico Aquícola e continuar desenvolvendo instrumentos genômicos para avaliar processos nessa área. Rodrigo integra o comitê científico do consórcio competitivo formado em 2009 por Canadá, Chile e Noruega para sequenciar o genoma do salmão do Atlântico até 2012.

“Estamos preparados como país para aproveitar o genoma do salmão, considerando que a Noruega, um competidor direto, está anos luz à frente em matéria de biotecnologia?”, perguntou Rodrigo, para quem “a chave genômica” é o segredo para “produzir melhor”, diminuindo custos e evitando a “superexploração” dos ecossistemas. A seu ver, este “projeto país” é quase desconhecido, por isso pediu urgência para melhorar a coordenação público-privada, privilegiando a sustentabilidade ambiental sobre os interesses econômicos para não “hipotecar o futuro”.

Para Flavia, mais do que apoio a uma indústria “que nasceu mal” é necessária “uma verdadeira política pública para a zona costeira”, que coordene e promova, com base em estudos e participação da sociedade civil, as diferentes atividades produtivas.

* * A autora é correspondente da IPS.

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