 | O processamento do néctar de maguey permite que indígenas de San Andrés Daboxtha aumentem sua renda. Crédito: Emilio Godoy/IPS | Destaques O maguey adoça a economia de mulheres indígenas Por Emilio Godoy
A produção de derivados do ancestral cultivo do maguey por cooperativas se converteu na principal fonte de renda de comunidades otomíes no centro do México.
EL CARDONAL, México, 31 de janeiro de 2011 (Tierramérica).- Colher de pau na mão, a indígena mexicana Hortencia Rómulo, mexe energicamente o líquido cor de âmbar em uma enorme panela de aço. “Precisa ferver muito para secar a água e ficar o xarope”, explicou ao Terramérica a otomíe Hortencia, de 45 anos, sobre a conversão do hidromel, o néctar do maguey (Agave atrovirens), em xarope semelhante ao mel.
Hortencia é uma das fundadoras da cooperativa Milpa de Maguey Tierno de La Mujer, formada por 22 mulheres e um homem que colhem esta cactácea na comunidade de San Andrés Daboxhta, em uma área de 73 hectares desta localidade que fica 120 quilômetros a nordestes da capital mexicana. O cultivo de maguey e a obtenção de seus derivados se converteram na principal fonte de renda dos indígenas otomíes no central Estado de Hidalgo, que a complementam com o plantio de milho, a criação de ovinos e projetos de ecoturismo.
“Foi um processo muito longo, aprendido em muitos campos. A organização se capacitou e se fortaleceu. Elas mesmas fazem a comercialização”, disse ao Terramérica Jocelyne Soto, delegada da organização não governamental Enlace Rural Regional (Errac), surgida em 1988 para impulsionar iniciativas produtivas em áreas marginalizadas. A Errac, também presente nos Estados de Querétaro, no centro do México, e Oaxaca, no Sul, apoia a cooperativa desde 1989, quando começaram a reflorestar com maguey e serralha branca (Agave lechuguilla) esta região caracterizada pela carência de água.
O maguey, que não precisa de muito liquido para crescer, é plantado principalmente em Hidalgo e no vizinho Estado de Tlaxcala, em uma área de seis mil hectares com cerca de 12 milhões de plantas, segundo o Ministério da Agricultura e o Instituto Nacional de Estatística e Geografia. O xarope de agave, feito com hidromel extraído da planta, é um adoçante 1,4 vezes mais efetivo do que o açúcar refinado, rico em fibras e proteínas. Além disso, a frutose que contém não estimula a secreção de insulina digestiva, como outros adoçantes.
O néctar citado foi o mais consumido pelos povos originários antes da chegada dos conquistadores espanhois ao território que o México ocupa atualmente, também por ser considerado um remédio energético. Os indígenas usavam a maior parte do hidromel para fabricar a bebida, substituído pelos espanhois pelo açúcar de cana. “Há muitos anos, o maguey é uma fonte importante de renda”, disse ao Terramérica o acadêmico Francisco Luna, da estatal Universidade Tecnológica do Valle do Mezquital.
No México existem cerca de cinco milhões de famílias que trabalham na economia camponesa, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Geografia. Até 1995, os agricultores buscaram melhores opções produtivas porque o pulque, uma bebida tradicional feita a partir da fermentação do suco extraído da raspagem do coração do maguey, cedeu lugar a outros elixires. Assim, se capacitaram e aprenderam a extrair hidromel e preparar o xarope.
Com personalidade jurídica desde 2000 e um selo ecológico da Certification of Environmental Standards, da Alemanha, as mulheres trabalham em uma unidade com capacidade instalada de uma tonelada semanal, cujas estufas são aquecidas com paineis solares e gás. Seu principal destino de venda é a região central do país e o Estado de Sonora, no norte. O suco pode ser extraído a partir do momento em que a planta atinge dez anos de vida e pode ser raspada diversas vezes ao dia. O néctar da manhã se transforma em xarope e o da tarde é destinado à produção de pulque.
De cada dez litros de hidromel se obtém um de xarope. Diariamente, as cooperativas cozinham entre 400 e 500 litros de matéria-prima. “Nos últimos dias, não temos recebido pedidos, mas já temos produto engarrafado para enviar quando for solicitado”, disse Hortencia, que também planta milho, aveia e feijão. Em Hidalgo surgiram várias cooperativas de produtores de maguey, que se focam na geração de valor agregado e em aproveitar um mercado crescente. A vantagem o maguey é ser totalmente aproveitado, desde as longas folhas, conhecidas como pencas, até o hidromel.
“Precisamos de mais infraestrutura. Apesar dos esforços, o projeto ainda não é sustentável”, disse Jocelyne. Este ano, a cooperativa quer ampliar a fábrica, e para isso precisa de US$ 13 mil. A organização suíça Globosol concedeu um crédito brando em 2006 de 15 mil euros (US$ 20,13 mil) para instalação de paineis solares, com os quais a cooperativa se converteu na primeira a usar energia solar para o processo alimentar. “As iniciativas industriais são poucas. O apoio governamental é insuficiente e o mercado pode ser melhor aproveitado”, disse Francisco. * O autor é correspondente da IPS. |