 | Imagem obtida via satélite de Ra’s Ajdir, passagem fronteiriça entre Líbia e Tunísia, feita no dia 3 de março. Vários milhares de pessoas em diferentes grupos esperam na intempérie. Crédito: DigitalGlobe 2011, mapa produzido por Unitar/Unosat | Reportagem Tecnologia para ajudar refugiados da Líbia Por Julio Godoy
A tecnologia via satélite está sendo usada para determinar a dimensão da tragédia humanitária na Líbia.
BERLIM, Alemanha, 14 de março de 2011 (Tierramérica).- Imagens obtidas por meio de satélites, mapas e análises feitas com base nelas estão ajudando a identificar os fluxos da população que foge da violência política da Líbia para países vizinhos. Uma das primeiras descobertas dessa informação é que a quantidade de pessoas efetivamente deslocada pode ser menor do que a informada pelos meios de comunicação.
A repressão aos levantes populares provocou, nas últimas semanas, o deslocamento de dezenas de milhares de pessoas dos países do Magreb, especialmente da Líbia, criando uma situação humanitária desesperadora. Um primeiro passo para abordar a crise é identificar esses fluxos de refugiados na geografia, para determinar a urgência da situação e as dimensões da ajuda necessária.
Para isso, o Instituto das Nações Unidas para Formação Profissional e Pesquisas (Unitar), por meio do Programa Operacional de Aplicações via Satélite (Unosat), está produzindo, desde meados de fevereiro, este tipo de informação. “O Unosat não se dedica à vigilância por satélite, mas fornece mapas, imagens e análises a pedido das Nações Unidas e de outras organizações” que ajudam os refugiados, disse ao Terramérica o chefe de Operações Humanitárias do Unitar-Unosat, Einar Bjorgo.
Criado em 2003, o Unosat obtém imagens por satélite mediante acordos com a Agência Espacial Europeia e com empresas e outras organizações que lidam e distribuem material de diversos satélites e aplicações informatizadas de análises. O trabalho consiste em obter e processar em grande velocidade as imagens obtidas por satélites para gerar informação geográfica que permita traçar os mapas e redigir análises.
Uma associação técnica com o Centro Conjunto de Pesquisa da Comissão Europeia e o Banco Mundial dá ao Unosat o contexto de procedimentos para avaliar danos em grande escala usando sensores remotos e análise geoespacial. De nacionalidade norueguesa e doutor em Geofísica, Einar dirige a unidade de manejo de informação geográfica e aplicação de imagens via satélites para fins humanitários.
“Os mapas que geramos fornecem informação objetiva e em tempo real. Os mapas não mentem, e nos permitem informar imediatamente o que é observável nas imagens”, afirmou Einar. As imagens via satélites permitem confirmar ou desmentir rumores e “nos ajudam a ter uma ideia clara das situações de urgência em regiões fronteiriças, além de identificar claramente onde estão localizados os campos de refugiados, para planejar operações humanitárias. Um mapa é a primeira coisa de que se precisa”, explicou.
“A situação na Líbia é muito complexa e dinâmica, o que faz as respostas ficarem rapidamente obsoletas”, disse Einar. “Tentamos atualizar nossos mapas e imagens o máximo possível”, por exemplo, “para esclarecer o que acontece em áreas críticas como na cidade de Bengasi (foco inicial da rebelião contra o regime de Muammar Gadafi), em Trípoli ou nas passagens de fronteira”.
Uma das entidades que usam estas informações é o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, (CICR). “Utilizando os mapas do Unitar-Unosat vimos que os fluxos de refugiados não são tão numerosos quanto o informado pela mídia e por outras fontes”, disse ao Terramérica o especialista de Sistemas de Informação Geográfica do CICR, Yann Rebois. “Vimos muito menos gente na fronteira do que indicam as notícias. Essa situação nos surpreendeu e despertou muitas perguntas”, acrescentou.
Segundo numerosas fontes, incluindo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), forças de Gadafi acossam constantemente trabalhadores imigrantes, especialmente os originários da África subsaariana, que estão fugindo da Líbia. Em um informe do dia 8, o Acnur citou refugiados sudaneses, entrevistados na fronteira da Líbia com o Egito, que denunciaram violações de meninas e perseguições violentas de trabalhadoras imigrantes.
“Obtivemos relatórios semelhantes de refugiados do Chade, que fogem de Bengasi, Al Bayda e Brega” no oriente do país, informou o Acnur. Outros informes indicam que milhares de cidadãos de Bangladesh tiveram que acampar sem proteção por mais de uma semana à espera de transporte para fugir da Líbia.
As organizações que utilizam os mapas do Unitar-Unosat são, em primeiro lugar, diversas agências da ONU, como o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários, Acnur, Organização Mundial da Saúde e Fundo das Nações Unidas para a Infância, entre outras. Entretanto, toda entidade humanitária e de assistência pode ter acesso aos mapas, “seja baixando do site www.unitar.org/unosat, assinando nossa fonte de conteúdos, seguindo nossas informações no Twitter (www.twitter.com/unosat) ou solicitando inclusão em nossa lista de e-mail”, esclareceu Einar.
O programa pode fornecer geoinformação em casos tão diversos como pirataria ou documentação de violações de direitos humanos em situações de emergências. Em 2009, o Unosat forneceu informação sobre 40 desastres em todo o mundo, desde as inundações na Namíbia e no Vietnã até a crise da população civil presa entre fogo cruzado na guerra entre os Tigres Tamis e o governo do Sri Lanka, passando pela situação dos palestinos submetidos à “Operação Chumbo Derretido”, que Israel lançou no final de 2008 na Faixa de Gaza. O Unosat tem acordos com a unidade de informação humanitária do Departamento de Estado norte-americano e com o site de busca Google. * * O autor é correspondente da IPS. |