Nro del 20 de Junho de 2011
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Um rebanho de vacas no México.
Crédito: Cortesia Central Camponesa Cardenista
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Venenos ocultos em carnes mexicanas
Por Emilio Godoy

Remédios e aditivos alimentares utilizados na avicultura industrial e na pecuária produzem carne bovina, de frango e de porco tóxicas ou contaminadas.

CIDADE DO MÉXICO, México, 20 de junho de 2011 (Tierramérica).- O sistema industrial de criação de animais está novamente em xeque no México, após os últimos escândalos pelo uso do anabolizante clembuterol e um medicamento para aves. O clembuterol é um descongestionante e broncodilatador, indicado para doenças respiratórias, que também tem a propriedade de aumentar o tecido muscular, e por isto é usado na engorda de aves e gado bovino e suíno. Estados Unidos e Grã-Bretanha proibiram seu uso humano por causa de seus efeitos sobre coração e pulmões.

No México, “foi gerada uma cultura de uso dessas substâncias. Os que trabalham na engorda querem rendimentos rápidos e somente com o uso de forragem não conseguem ótimos rendimentos. E os açougueiros não compram a carne se ela não tiver clembuterol”, disse ao Terramérica o pecuarista Cosme Amaro, no Estado de Veracruz. O medicamento é aplicado durante três ou quatro meses desde que o novilho completa sete meses de idade. Acumula nos tecidos, sobretudo no fígado dos animais, incluindo porcos e frangos.

A ingestão de carne com clembuterol pode ultrapassar as doses médicas habituais para humanos, entre 40 e 60 miligramas (mg) diários, mas sem superar os 150 mg, segundo o Comitê Misto de Especialistas em Aditivos Alimentares, da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação e da Organização Mundial da Saúde. E, por ser um anabolizante, é uma substância proibida para os desportistas. Na Copa Ouro 2011 da Concaf (Confederação de Associações de Futebol da América do Norte, América Central e do Caribe), o primeiro exame antidoping de cinco jogadores mexicanos indicou a presença do anabolizante, supostamente por ingestão de carne contaminada neste país.

“As substâncias conhecidas como beta-agonistas adrenérgicos, entre elas o clembuterol, continuam sendo usadas de forma clandestina, irresponsável e sem ética na alimentação animal, principalmente bovinos de corte, mas não se sabe com exatidão a magnitude de seu uso”, disse ao Terramérica o diretor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Autônoma do Estado do México, Ignácio Domínguez.

Embora melhore o rendimento e a qualidade dos animais, o clembuterol tem potencial tóxico, concluíram Domínguez e outros cinco pesquisadores no estudo “Os Beta-Agonistas Adrenérgicos como Modificadores Metabólicos e seu Efeito na Produção, Qualidade e Inocuidade da Carne de Bovinos e Ovinos: uma Revisão”, publicado na edição de novembro 2009-fevereiro 2010 da revista Ciencia ergo sum.

No México é proibida a produção, venda e utilização na alimentação de animais de 15 substâncias, entre elas o clembuterol. O Ministério da Agricultura autoriza a aplicação do cloridrato de zilpaterol em bovinos, suínos e ovinos, pois é menos potente e tem menor risco de acumular nos tecidos. O clembuterol ganhou notoriedade em 2002 no Estado de Jalisco, quando apareceram mais de cem pessoas doentes por comerem fígado de boi. Desde então, e até 2010, foram contabilizados 807 casos.

Em vista disso, a Secretaria de Saúde estadual determinou um alerta sanitário, que, no entanto, foi suspenso em 31 de maio deste ano, aparentemente pela proximidade dos Jogos Pan-Americanos, que acontecerão em outubro em Guadalajara, capital do Estado, pois não houve um desaparecimento efetivo de casos. O governo e a indústria garantem que a carne é boa, mas a evidência científica e as intervenções sanitárias os desmentem. Desde 2004, foram registradas dezenas de intoxicações em vários Estados do país.

A operação da indústria avícola é semelhante. “O arsênico encontrado no esterco de galinhas poedeiras provém do uso de sais arsenicais no alimento para frango para o controle da coccidiose”, doença parasitária que causa atraso no crescimento e mortalidade entre as aves, diz a pesquisa “Origem e Destino do Arsênico em uma Exploração de Gado de Corte”. A produção avícola gera abundantes dejetos que depois são usados como fertilizantes ou como alimento do gado. Estes podem contaminar o subsolo e eventualmente a água. O arsênico, que também tem origem em fontes minerais, é muito tóxico, cancerígeno e pode provocar dermatite e bronquite.

“A presença de arsênico no sangue dos bovinos é indicativo da exposição, em nosso caso, a fontes como o excremento de galinha com que se alimenta o gado, os sais minerais e a água”, concluiu o estudo que examinou amostras de rebanho, e foi apresentado por René Rosiles, acadêmico da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Nacional Autônoma do México, no XXVIII Congresso da Associação Mexicana de Médicos Veterinários Especialistas em Bovinos, em 2004.

No dia 8 de junho, a companhia farmacêutica norte-americana Pfizer anunciou que retiraria do mercado norte-americano o medicamento 3-Nitro, também conhecido como roxarsone, arsênico orgânico administrado aos frangos para combater a coccidiose. A decisão foi tomada porque a agência norte-americana de controle de alimentos e medicamentos (FDA) encontrou, este ano, traços de arsênico em pedaços de frango à venda em alguns estabelecimentos. Contudo, ele continua permitido em outros 14 países, entre eles o México e mais cinco latino-americanos. A União Europeia proibiu esse composto em 1999.

“O uso ocorre por caminhos legítimos e clandestinos”, afirmou Amaro, dono de um rebanho de 80 cabeças. O estudo de Rosiles conclui que “a contribuição do arsênico em quantidades relativamente pequenas, ao unir-se com o resto das fontes, faz com que finalmente a exposição do gado seja grave”. Para Domínguez, fala-se em “não contar e aplicar um programa de rastreamento desde a unidade de produção até o consumidor final, na cadeia de produção, transformação e comercialização, para que tenhamos uma inocuidade alimentar da carne”.

* * O autor é correspondente da IPS.

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