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Antônio da Costa junto aos seus bwpapaias gigantes, cultivados graças à represa subterrânea.
Crédito: Mario Osava/IPS
Reportagem
Cada gota de chuva conta
Por Mario Osava, enviado especial

As técnicas para aproveitar as poucas chuvas do Nordeste do Brasil objetivam o abandono da ideia de luta contra a seca e a adoção da convivência com este bioma.

OURICURI, Brasil, 19 de setembro de 2011 (Terramérica) (Tierramérica).- O Brasil se considera um país rico em água, pela abundância de aquíferos e caudalosos rios. Contudo, o reconhecimento de que a riqueza fundamental é a chuva começa onde esta é mais escassa: o interior do semiárido do Nordeste. “Meu pai dormia pouco, carregava água à noite, e de dia trabalhava na lavoura. Ainda assim, viveu 84 anos”, recorda Francinete Gomes Viana. A água mais próxima ficava a três quilômetros, em um açude que também secava, o que o obrigava a ir “buscá-la mais longe, a 13 quilômetros”, disse ao Terramérica.

Desde menina, “saía às quatro da manhã para lavar roupa, e voltava sob o Sol forte”. Deixou esse trabalho por alguns anos para estudar em Ouricuri, cidade de 33 mil habitantes a 52 quilômetros de sua cidade, Laginha, no Oeste de Pernambuco, um dos nove Estados do Nordeste brasileiro. Há nove anos, Francinete conseguiu a cisterna que armazena 16 mil litros de água da chuva para beber e cozinhar, e se livrou da “água ruim, contaminada” e das represas distantes. Também melhorou a saúde de todos, afirma.

“As crianças já não têm diarreia, os idosos ficam menos doentes”, acrescenta sua vizinha Francisca da Silva, que viveu 49 anos em Laginha e também se beneficiou do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), impulsionado desde 2001 pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), uma rede de mais de 700 organizações e movimentos sociais do Nordeste. Francinete, de 37 anos, secretária da Associação de Pequenos Agricultores local e mãe de três filhos, já não sofre os “problemas de estômago” que a levavam “ao hospital a cada 15 dias”.

Essa mudança ela atribui às verduras e frutas que cultiva graças à cisterna-calçadão, outra tecnologia social promovida pela ASA, neste caso para a produção de horta familiar. O calçadão é uma área inclinada de 200 metros quadrados, feita de concreto sobre o solo, que faz a água da chuva escorrer para uma cisterna com capacidade para 52 mil litros.

A ASA defende o acesso a água como um direito humano básico e, por fim, a disseminação de pequenas infraestruturas para captação e armazenagem de água da chuva para consumo humano e atividades produtivas. Sua área de atuação, o bioma semiárido do Nordeste brasileiro, soma 970 mil quilômetros quadrados, mais do que Alemanha e França juntas, e perto de 21 milhões de habitantes, 11% da população brasileira.

Esta é a região semiárida que recebe mais chuva no mundo, uma média de 750 milímetros ao ano. Embora as secas mais graves reduzam este índice a 200 milímetros em algumas partes, e as chuvas se concentrem em poucos meses, é possível viver e produzir alimentos aqui, afirma a Asa. A solução é armazenar a água para os quase oito meses de estiagem, dando-lhe o melhor uso possível e evitando a evaporação, com técnicas já desenvolvidas, agroecologia e boa gestão hídrica.

A ideia é conviver com o clima semiárido, o que implica opor-se às grandes obras de “combate à seca”, a política oficial de construção de represas que chegou ao extremo com a transposição do Rio São Francisco para abastecer 30 represas e fortalecer bacias da parte norte do semiárido, a centenas de quilômetros do curso original. O megaprojeto, composto por dois canais em construção desde 2007, custará R$ 6,85 bilhões (US$ 4 bilhões) e beneficiará 12 milhões de habitantes em cidades grandes, médias e pequenas, segundo o de Integração Nacional, que prevê para 2015 o fim das obras.

Com menos de um terço dessa quantia seria possível atingir a meta de um milhão de cisternas, que a ASA fixara para 2008. O apoio do governo a esta iniciativa não foi suficiente, embora represente a maior parte da ajuda financeira para construir as 315.140 cisternas e os 8.799 sistemas de coleta de água pluvial para a produção, conseguidos até o mês de julho. Além disso, as cisternas se destinam a uma população rural “difusa”, que compreende as famílias mais pobres e vulneráveis à falta de água, não alcançadas pelas “obras contra a seca” que ampliam as desigualdades de acesso hídrico, segundo a Asa.

No entanto, com o novo governo de Dilma Rousseff abre-se uma fase “interessante”, destacou Jean Carlos Medeiros, coordenador do P1MC. A presidente, que pretende erradicar a miséria no Brasil, adotou as tecnologias da ASA em seu programa Água para Todos. Sua meta é implantar 750 mil cisternas para consumo humano e 150 mil para produção, além de outros 23 mil sistemas de coleta de água pluvial para irrigação no semiárido.

Um objetivo é “universalizar” a primeira cisterna entre a população rural necessitada de água para beber, “entre 1,2 e 1,4 milhão de famílias”, estimou Jean Carlos. A ASA propôs, por outro lado, instalar “210 mil cisternas em dois anos”, revelou ao Terramérica. O ritmo muito mais lento se baseia em reconhecer os entraves burocráticos do governo e a capacidade de mobilização e princípios da Asa. “A meta não deve atropelar nossa metodologia”, disse Alba Cavalcanti, coordenadora-adjunta do programa Uma Terra e Duas Águas, que destina o recurso à produção agrícola.

Uma comissão municipal, com representantes de diferentes setores, seleciona os beneficiados, que devem, por sua vez, apresentar uma contrapartida em trabalho e se capacitar na gestão da água. Para a ASA, as cisternas também são “um catalisador” de organizações e participação comunitária, de conscientização de direitos e formação, destacou Jean Carlos. A “segunda água” para produção compreende vários sistemas, além da “cisterna calçadão”.

Uma represa subterrânea permite a Antonio da Costa, presidente da Associação de Laginha, onde vivem 40 famílias, cultivar manga, goiaba, mandioca, feijão, milho e especialmente mamão papaia, cujos pés ficam carregados de frutas em quantidade e tamanho incríveis em uma terra que se supõe pouco fértil.

Um pedaço comprido de plástico enterrado sob o curso de riachos ou depressões que se formam na temporada de chuva, e uma barreira de tijolos retêm a água pluvial para empapar um bom pedaço de terra e encher poços próximos, assegurando um solo úmido por vários meses, explica o camponês de 56 anos, pai de quatro filhas, duas delas professoras, e um rapaz. “Melhorei da minha gastrite, porque como o que produzo, sem agrotóxicos”, diz, mostrando a mistura de esterco e vegetais com que aduba seus cultivos.

Os tanques de pedra aproveitam o afundamento em pisos rochosos que captam naturalmente água da chuva, às quais acrescenta-se muros para acumular mais água. Esta é usada para dar de beber aos animais, irrigação e lavagem de roupa. É de uso coletivo, como a bomba de água popular, um poço tubular com um equipamento manual para retirar água.

Os camponeses se fazem donos dessas tecnologias, diz Edesio Medeiros, coordenador de “segunda água” no Centro de Habilitação e Apoio ao Pequeno Agricultor do Araripe, que ajuda as famílias de Laginha e atua em todo o oeste de Pernambuco. “E promovemos o intercâmbio, levando-os a outras comunidades” para compartilharem conhecimentos.

* O autor é correspondente da IPS.

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