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Uma mulher compra pescado para usar como isca, em um mercado de Saint George.
Crédito: Desmond Brown/IPS
Destaques
Granada sob estresse climático
Por Desmond Brown

As dores da mudança climática são sentidas na pesca, na agricultura e no turismo de Granada, país insular no sudeste do Mar do Caribe.

SAINT GEORGE, Granada, 26 de março de 2012 (Tierramérica).- James Nicholas viveu sempre do mar. Pescador das ilhas de Granada, Carriacou e Pequena Martinica, recorda o próspero negócio de vender suas capturas diárias a moradores e restaurantes, ou de exportar o pescado para luxuosos hotéis da vizinhança caribenha. Porém, as coisas mudaram ultimamente neste arquipélago que leva o nome de sua ilha maior, Granada.

Especialistas locais culpam a mudança climática e garantem que seus efeitos estão causando um significativo esgotamento da pesca. Em 2010, a indústria pesqueira de Granada chegou ao pico de empregar cerca de quatro mil pessoas neste país de aproximadamente 90 mil habitantes e deixar na economia US$ 5,2 milhões apenas a título de exportações. “Havia abundância de peixes perto das áreas costeiras. Agora, algumas espécies desapareceram por completo”, disse James, presidente da Southern Fishermen Association (Associação de Pescadores do Sul), um dos grupos que representam os produtores do setor.

“Contei oito espécies que já não são encontradas. Não posso dizer que seja a mudança climática porque não sou cientista. Tenho que me guiar pelo que eles dizem”, afirmou ao Terramérica. Contudo, sem dúvida os afiliados da associação pescam cada vez menos e isto se reflete em suas minguadas rendas, acrescentou. Para Karl Hood, atual chanceler e ex-ministro do Meio Ambiente de Granada, a redução da pesca é consequência direta da mudança climática.

Há uma drástica queda de jacks, uns peixes pequenos que são usados como isca. “Não são capturados desde o ano passado”, disse Karl em uma entrevista em seu escritório do complexo ministerial situado no Jardim Botânico, na periferia da capital. “Normalmente, em novembro há muitos jacks. No entanto, desta vez não apareceram, a ponto de os pescadores não conseguirem iscas”, explicou. “Basta ir ao mercado para ver que não há pescado”, indicou. Diante da alternativa de guardar seus equipamentos de pesca e ir para casa, muitos pescadores foram obrigados a importar sardinhas dos Estados Unidos para usá-las como isca.

Uma causa do desaparecimento de peixes está nos corais. Os arrecifes de corais abrigam 25% das espécies marinhas incluídos os peixes, aos quais proporcionam um espaço para reprodução e criação. Hoje são objeto de vários ataques, afirmou a doutora em ciências do mar, Clare Morrall, diretora do Programa de Biologia Marinha da St. George’s University. Nos últimos anos a água da superfície do mar está mais quente do que o habitual, afirmou, e por isto desaparecem as algas unicelulares que dão cor aos corais. Estes embranquecem e morrem.

O calor da água atenta contra a relação simbiótica das algas e dos pólipos que produzem as construções calciformes conhecidas como arrecifes de coral. Contudo, “não temos apenas efeitos da mudança climática diante dos quais os corais poderiam apresentar certa capacidade de recuperação. Também há maiores cargas de substâncias nutrientes, que chegam ao mar arrastadas pela chuva”, destacou Clare. Isto também poderia estar vinculado ao aquecimento, que prolonga as secas.

Quando chove após uma longa seca, a enxurrada tem maior capacidade de arrasto e causa maior erosão dos solos. Isto, somado aos fertilizantes e ao esgoto, é uma mistura desastrosa para os arrecifes, pois multiplica a quantidade de nutrientes dos quais se alimentam as macroalgas. Se, além disso, “tiramos os peixes que normalmente se alimentam dessas algas temos uma situação que se repete em todo o Caribe: passamos de sistemas dominados pelos corais a sistemas dominados pelas algas”, alertou Clare.

Para a bióloga, “a forma em que a mudança climática atua nesse processo é outro fator ao qual os corais devem adaptar-se”. No entanto, a pesca é apenas uma das várias indústrias afetadas pela transformação do clima, disse Karl. Há dois anos, uma invasão do mar devastou a atração turística emblemática deste país: a praia Grande Anse, ao sul, de mais de três quilômetros de comprimento, recordou o ministro. E as águas dessa praia ficaram mais profundas, outro indício de erosão.

Um informe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) estima que uma elevação de 50 centímetros do nível do mar poderá causar inundações em mais de 60% das praias de Granada. O documento fala de meio metro, mas mesmo com uma elevação menor, seu efeito seria igualmente daninho, enfatizou Karl. A mudança climática “é uma ameaça real para nós, e agora, como chove muito, cultivos tradicionais que seriam plantados e colhidos em determinado momento já não funcionam”, afirmou.

O ministro também se preocupa com os acontecimentos na vizinha ilha de Dominica, onde fortes chuvas causaram, em setembro passado, deslizamentos de terra e desmoronamentos, prejudicaram moradias e arrastaram pontes e veículos. Algumas áreas povoadas ficaram sem água e sem eletricidade. Karl afirmou que a mudança climática é um problema monetário, porque é preciso obter os fundos necessários para a adaptação. As economias caribenhas se recuperam lentamente de uma longa e profunda recessão e não têm os recursos para abordar este desafio, concluiu.

Granada e seus vizinhos entenderam que a força também é questão de números. Assim, foi formada a Aliança de Pequenos Estados Insulares, de 39 membros e quatro observadores de todas as regiões do planeta, que pretende atuar como voz única para o lobby e as negociações no âmbito das Nações Unidas. Buscamos que “os países maiores, os maiores emissores de gases-estufa, os que mais contaminam, nos ouçam e entendam de onde viemos. Estamos muito decididos a continuar lutando até conseguirmos transformações”, assinalou Karl. “Ainda há quem não leve isto muito a sério. Temos pela frente uma tarefa de enormes proporções”, ressaltou.

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