 | Uma família passeia em praia da Região Autônoma do Atlântico Norte, nordeste da Nicarágua. Crédito: Germán Miranda/IPS | Reportagem O termostato do planeta se muda para Doha Por Stephen Leahy, enviado especial
No Catar, notório país petroleiro, começa uma nova
cúpula sobre clima, que deve adotar objetivos
verificáveis para manter o aquecimento sob controle.
DOHA, Catar, 26 de novembro de 2012 (Tierramérica).- As negociações climáticas da Organização das
Nações Unidas (ONU) podem energizar a busca por
soluções para o aquecimento do planeta que,
segundo o Banco Mundial, continua avançando e pode
chegar a quatro graus até 2100. É o que estabelece
o estudo Reduzir o Calor. Porque se Deve Evitar um
Aumento de 4ºC da Temperatura Mundial, apresentado
no dia 19 e elaborado para o Banco Mundial pelo
Potsdam Institute for Climate Impact Research e
pela Climate Analytics.
No entanto, a 18ª Conferência das Partes (COP 18)
da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança
Climática, que começa hoje na capital do Catar, se
tornou extremamente complexa. Os 194 Estados-
partes da Convenção estão de acordo em fixar um
objetivo de redução de emissões de gases de
efeito-estufa para evitar que o aumento da
temperatura média mundial supere os dois graus e
nos encaminhe para uma mudança climática
catastrófica.
Essa meta é fácil de entender, mas a forma de
alcançá-la é objeto de intensas negociações por
muitos anos, disse Jennifer Mortan, diretora do
Programa de Clima e Energia do Instituto de
Recursos Mundiais, uma organização não
governamental com sede em Washington. No ano
passado, na COP 17, em Durban, África do Sul,
foram necessários dias extras de negociações para
que os países finalmente acordassem uma nova
rodada de discussões para criar um tratado
internacional legalmente vinculante.
Esse pacto exigirá que todos os países adotem
reduções em suas emissões de dióxido de carbono
para 2015 a fim de cumprir o objetivo de não
superar os dois graus. Espera-se que isto seja
ratificado e entre em vigor em 2020. “Ninguém sabe
como será esse novo acordo. Os países ser
apresentarão em Doha com a vontade de criar um
plano de trabalho sólido?”, disse Morgan ao
Terramérica durante uma entrevista coletiva.
Para 2015, falta menos de três anos. O Protocolo
de Kyoto, que obriga os países industrializados a
reduzirem suas emissões, foi negociado em menos de
três anos e assinado em 1997. Mas demorou oito
anos, até 2005, para se conseguir as ratificações
necessárias para que entrasse em vigor, e países
importantes, como os Estados Unidos, retiraram sua
assinatura. Uma das principais questões em Doha
será a “ambição”, alertou Morgan, se referindo aos
volumes de redução de gases que os governos
estejam dispostos a assumir.
A ciência climática mostra que, para o aquecimento
global não superar os dois graus, as emissões
mundiais de gases-estufa devem começar a cair em
2020. Para isso, as nações industrializadas devem
reduzir suas emissões entre 25% e 40% abaixo do
nível de 1990. Os Estados Unidos se comprometeram
com uma redução de 3% em relação a 1990. A Grã-
Bretanha caminha para redução de 34% e já
conseguiu baixar 18%. “Esperamos que Washington
leve a Doha uma nova estratégia, mais ambiciosa”,
enfatizou Morgan.
Os atuais compromissos estão muito longe do
necessário, disse Bill Hare, presidente e diretor
gerente da Climate Analytics, uma organização sem
fins lucrativos que se dedica à assessoria
climática e tem sede em Berlim. Os países devem
encontrar a maneira de reduzir entre nove bilhões
e 11 bilhões de toneladas de dióxido de carbono
até 2020, ou terá que esquecer os dois graus,
detalhou ao Terramérica.
Está aumentando a “brecha de emissões”, entre as
reduções comprometidas e o que se necessita para
manter o clima sob controle, segundo novos dados
divulgados pelo Programa das Nações Unidas para o
Meio Ambiente (Pnuma) e a organização de Hare. “A
brecha continua aumentando, e isto deixa mais
difícil e caro sustentar-se abaixo dos dois
graus”, ressaltou.
Depois da queima de combustíveis fósseis, o
desmatamento é a segunda maior fonte de emissões
de carbono. Para incentivar financeiramente os
países em desenvolvimento a reduzirem o
desmatamento, na COP 18 também será negociado o
controvertido programa REDD+ (Redução de Emissões
e Carbono Causadas pelo Desmatamento e pela
Degradação das Florestas). O valor das florestas
vai muito além do fato de serem depósitos de
carbono, afirma a primeira avaliação científica
exaustiva da REDD+ e de seus possíveis impactos
sobre a biodiversidade e os meios de vida das
populações locais.
Conservar a diversidade biológica e o sustento
humano é essencial se queremos que este programa
funcione, diz o informe Understanding
Relationships Between Biodiversity, Carbon,
Forests and People: The Key to Achieving REDD+
Objectives. A Global Assesment Report (Entendendo
as Relações entre Biodiversidade, Carbono,
Florestas e População: a Chave para Conseguir os
Objetivos REDD+. Uma Avaliação Mundial). A União
Internacional de Organizações de Pesquisa
Florestal divulgou adiantamento desse relatório
antes da reunião de Doha, onde será apresentado o
texto completo.
“As florestas, que estão minguando rapidamente,
não são apenas depósitos de carbono. Proporcionam
uma ampla gama de bens e serviços ambientais que
as pessoas necessitam”, disse ao Terramérica o
coautor do informe, John Parrotta, cientista do
Serviço Florestal dos Estados Unidos. Por exemplo,
fornecem água limpa, evitam inundações,
proporcionam alimentos e habitat para os seres
humanos e muitas outras criaturas, como as
abelhas, que cumprem serviços valiosos, como a
polinização.
O desmatamento consome a cada ano uma área
equivalente à da Grécia (13 milhões de hectares),
e está pautado principalmente pelo avanço da
agricultura e pela indústria madeireira. O REDD+ é
uma tentativa de reverter essa tendência, criando
valor financeiro para o carbono armazenado nas
florestas.
Na medida em que crescem, os vegetais retiram
dióxido de carbono da atmosfera e o armazenam pelo
resto de suas vidas. Em lugar de cortar as árvores
e vender a madeira, o carbono sólido alojado nas
árvores vivas pode ser vendido sob a forma de
“créditos de carbono” em um mercado aberto. Assim,
uma indústria de aço ou cimento dos Estados Unidos
ou de um país europeu pode comprar esses créditos
em lugar de reduzir suas emissões de gases-estufa.
O preço atual gira em torno de US$ 10 por
tonelada.
Como qualquer outro mercado, o do carbono exige
verificar quanto carbono há em uma floresta e
quanto dele permanecerá ali ao longo de 40, 60 ou
80 anos. Este procedimento é muito complexo e
caro. Os que compram os créditos de carbono também
querem acordos contratuais com os donos da
floresta para garantir que o carbono fique na
floresta, o que pode impedir que várias gerações
de populações locais usem esse recurso para se
alimentar, limpar um pedaço ou mesmo caçar.
Embora o REDD+ possa proteger as florestas e ser
uma fonte de ganho anual para a população local,
colocar em prática de forma correta é muito
complicado e há muito por fazer, opinou Parrotta.
“É difícil vislumbrar muitos avanços em Doha”,
ressaltou. * |