 | O legendário Castelo do Morro, em Santiago de Cuba. Crédito: Guillaume Thomassin. | Destaques Em Cuba a terra também treme Por Patrícia Grogg
Santiago de Cuba, fundada em 1515, é uma das cidades de maior risco telúrico na ilha. Normas sísmicas guiam a construção de novas moradias.
SANTIAGO DE CUBA, (Tierramérica).- Açoitada com freqüência pelos furacões que a cada ano devastam a região do Caribe, Cuba não está livre do risco de um desastre telúrico, devido à proximidade de sua porção mais oriental ao sistema de falhas Bartlett-Caimán. Esta falha constitui o limite ativo das placas litosféricas da América do Norte e do Caribe (a litosfera é o invólucro rochoso que constitui a crosta externa sólida do globo terrestre) e em suas imediações são registrados os movimentos telúricos mais fortes. Como média, no país se registra anualmente entre 10 e 15 sismos perceptíveis, mas o último terremoto de intensidade que causou grandes danos aconteceu no dia 3 de fevereiro de 1932.
“Primeiro foi o barulho estremecedor. Depois, tudo começou a se mover e as pessoas a gritar, correndo enlouquecidas. Era como se o mundo fosse acabar”, contou ao Terramérica Francisco López, que ainda se lembra daquele dia em que Santiago de Cuba, capital da província de mesmo nome, foi devastada por um tremor que atingiu 8 graus na escala Richter (com a qual se chegou a registrar um máximo de 9,5 graus). Aproximadamente 80% das construções da cidade, que fica 847 quilômetros a sudeste de Havana, sofreu em maior ou menor intensidade o impacto dos tremores. Nem a venerável catedral metropolitana ficou incólume e embora tenha permanecido de pé, sofreu sérios danos no teto e nas paredes. Nessa ocasião, o anjo que olha a cidade da cúpula perdeu uma de suas asas. A poucos metros, o hotel Vênus teve pior sorte e desmoronou.
Em 1947, um sismo de magnitude semelhante atemorizou novamente os habitantes da cidade, mas foi menos destrutivo, disse ao Terramérica Enrique Arango, vice-diretor científico do Centro Nacional de Investigações Sismológicas (Cenais). Além de Santiago de Cuba, as províncias em maior risco sísmico são Guantânamo, Granma e Holguín, todas no extremo oriental da ilha, embora especialistas alertem que terremotos podem ocorrer em todo o país. Entretanto, até pouco tempo atrás era escassa a percepção de risco de desastres telúricos. “Como em nosso país os terremotos acontecem a cada 80 ou 100 anos, se perde a memória histórica destes fatos”, explicou Arango.
O Cenais, criado em 1992, há dois anos elaborou um mapa de risco sísmico de Santiago de Cuba, que tem atualmente quase meio milhão de habitantes, para o traçado das estratégias de investimento, construção e reabilitação mais adequadas em cada caso. As licenças ambientais para a região oriental exigem uma avaliação sismológica. A cidade foi fundada em 1515 e é a segunda do país em importância socioeconômica, depois de Havana, mas tem bastantes construções erguidas no final do século XIX ou início do XX, cujo estado “não é satisfatório” em muitos casos, admitiu Arango. Estatísticas oficiais indicam que nas províncias orientais do país mais da metade das moradias estão em regular ou mal estado.
“Deve-se analisar as tecnologias e materiais mais convenientes para o lugar onde se vai construir casas, e o primeiro a ser avaliado é que tipo de ameaças o território apresenta. Na zona oriental, toda construção deve respeitar a norma sísmica elaborada em 1999”, afirmou Arango. Essas normas estabelecem parâmetros de engenharia segundo o tipo de obra, o uso ou destino que terá, as características do solo e outros elementos técnicos. Para isso, o Cenais fornece a avaliação da vulnerabilidade sísmica, com já fez com todas as instalações hospitalares da área de maior risco. Nos últimos 30 anos, o impacto de desastres de origem tectônica e geológica causou mais de 116 mil mortes na América Latina e no Caribe, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.
Cuba prepara atualmente condições tecnológicas para integrar-se ao sistema de alerta de sismos e tsunamis na região. “Nossa rede registra terremotos de intensidade igual ou superior a 5,5 graus (na escala Richter) em qualquer parte do mundo, e podemos monitorar os que ocorrem no Pacífico centro-americano”, disse Arango. Contudo, este e outros especialistas cubanos asseguram que é muito baixo o risco de um terremoto submarino causar um tsunami, devido às características da sismicidade regional e o tipo de falha que rodeia o país. O Cenais conta com sete estações “de banda larga” (capazes de registrar sismos próximos ou distantes), localizadas estrategicamente no país, com quatro estações telemáticas, que registram sobretudo movimentos locais. Em seu corpo de 110 trabalhadores há 35 pesquisadores, seis doutores e 14 pessoas com nível de mestrado. * A autora é correspondente da IPS. |