 | Uma rua central de São Paulo. Crédito: Photo Stock. | Reportagem Infertilidade vinculada a fatores ambientais Por Mário Osava
O esperma dos habitantes de São Paulo, a maior metrópole do Brasil, sofre deterioração. Especialistas relacionam o problema com a poluição do ar, as substâncias químicas nos alimentos e o estresse.
RIO DE JANEIRO, (Tierramérica).- Um novo alarme sobre as causas ambientais do aumento da infertilidade foi registrado no Brasil. Desta vez procedente de São Paulo, a maior metrópole do país, onde o Banco de Sêmem do Hospital Albert Einstein sofre a falta de bons doadores. A deterioração do esperma dos paulistas é preocupante. Em 1992, quando iniciou suas atividades, o Banco recebia sêmem contendo entre cem milhões e 150 milhões de espermatozóides por mililitro. A média caiu um terço, com uma concentração de 30 milhões a 50 milhões, revelou Vera Beatriz Brand, coordenadora da unidade. Essa quantidade ainda garante a capacidade reprodutiva de um homem, que continua sendo fértil até com 20 milhões de espermatozóides por mililitro de esperma.
Porém, um doador de esperma deve apresentar mais de 50 milhões, já que a metade dos espermatozóides morre no processo de congelamento usado para sua conservação, explicou ao Terramérica a médica, que há 18 anos trabalha no Hospital Albert Einstein, e no Banco de Sêmem desde sua inauguração. Seus dados resultam da simples observação de doadores e, “ultimamente, mais candidatos do que doadores efetivos”, sem nenhuma pretensão científica, explicou. Trata-se de um universo muito limitado, porque são poucos os que doam e a atividade é recente no Brasil. O Centro de Fertilização Assistida, que mantém outro banco de sêmem em São Paulo, confirma a tendência. “Estamos cada dia mais convencidos de que fatores ambientais estão interferindo na redução de espermatozóides e também na capacidade fértil da mulher”, disse ao Terramérica o diretor do centro, Edson Borges Júnior.
A poluição do ar, as substâncias químicas nos alimentos, o estresse e outros efeitos da urbanização estão “intimamente relacionados com essa perda de fertilidade”, afirmou. São os fatores “gonadotóxicos” os que afetam a qualidade e quantidade dos gametas (células sexuais femininas e masculinas), explicou. Esta tendência é mais visível em alguns animais de ciclo reprodutivo mais curto, como várias espécies de pássaros, cujos ovos apresentam cascas mais finas, reduzindo a capacidade de sobrevivência, deu como exemplo. Outros casos reveladores são o aumento de crocodilos hermafroditas no lago Apopka, no Estado norte-americano da Flórida, devido a poluentes que alteram o sistema hormonal, e ainda a queda reprodutiva das panteras nessa mesma região, acrescentou Edson.
A queda da fertilidade é um problema mundial, especialmente nos países industrializados, e tende a se agravar, disse Maria do Carmo Borges de Souza, ginecologista e presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida. Em recente congresso europeu, foi informado que um terço da população masculina da Dinamarca apresenta infertilidade e necessita de métodos artificiais de reprodução. Também na América Latina são cada vez mais procuradas as clínicas de reprodução assistida. Isso reflete uma maior divulgação das técnicas de fertilização e fecundação, antes ignoradas pelos casais inférteis, mas uma boa parte deve ser causada pela queda da fertilidade.
A Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida tinha 21 centros registrados em sua primeira publicação, em 1990. Aumentou para 191 em 2002, concentrados principalmente no Brasil (42), Argentina (19) e México (12). Os procedimentos iniciados, usando técnicas como fertilização in vitro e injeção intracitoplasmática de espermatozóides, aumentaram de 4.496, em 1992, para 18.832 dez anos depois, em toda a região. No Brasil, que tem hoje mais de 182 milhões de habitantes, o censo de 2000 registrava mais de 15 milhões de pessoas em idade reprodutiva com dificuldade para procriar. A falta desse dado nos censos anteriores impede observar a evolução do problema.
Faltam estudos sobre as causas da maior infertilidade, e pesquisá-las é um desafio difícil, porque há muitos fatores a considerar no ambiente, explicou Maria do Carmo. O mais provável é que o fenômeno se deva a um conjunto de fatores relacionados com a industrialização. São Paulo, com seus 11 milhões de habitantes, é a cidade “mais industrializada do Brasil e paga seu preço”, afirmou. Pode-se afirmar que isto reflete “um grande desequilíbrio” provocado “pelas modificações que a humanidade impôs à natureza, com conseqüências contra ela mesma”, acrescentou. Uma pesquisa coordenada pela médica busca estabelecer relações entre problemas ambientais e a saúde reprodutiva dos habitantes do Rio de Janeiro.
O foco de sua atenção é a água, consumida por todos e, portanto, com efeitos generalizados. Sua preocupação se baseia no fato de a principal fonte de abastecimento da cidade ser a bacia do rio Paraíba do Sul, de águas contaminadas por numerosas indústrias e onde foram descobertos muitos peixes com alterações biológicas, em um estudo realizado por uma universidade local. A conclusão da pesquisa, da qual participam cientistas de diferentes áreas do conhecimento, está prevista para 2008. Já foi feita uma pesquisa com cem casais inférteis, que serão comparados com um grupo que não teve dificuldades para ter filhos.
As comparações envolvem as diferentes fontes de água e pessoas expostas a condições críticas, como o trabalho com produtos tóxicos e químicos, adiantou a especialista. Uma relação direta entre poluição atmosférica e reprodução humana foi identificada em recente estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que conclui que a maior presença de partículas sólidas no ar reduz a quantidade de nascimentos de bebês do sexo masculino. Para a pesquisa do Laboratório de Poluição Atmosférica dessa faculdade, a cidade de São Paulo foi dividida em três áreas.
Na mais poluída nasceram 50,7% de bebês do sexo masculino entre 2001 e 2003, enquanto na zona relativamente mais limpa a proporção foi de 51,7%. Embora a diferença pareça pequena, é importante como indicador de tendência e em termos demográficos, explicou a bióloga Ana Julia Coimbra, que confirmou um desequilíbrio mais acentuado em testes de laboratório. Em um estudo feito com cem ratos, a metade que foi mantida em um compartimento com ar puro teve 24% a mais de nascimentos masculinos do que o grupo que viveu em um ambiente tão contaminado quanto o da capital paulista. * O autor é correspondente da IPS. |