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A verdadeira ameaça é o terrorismo nuclear |
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Por Dietrich Fischer*
Se
um único artefato atômico detonasse em um carro estacionado em Londres,
mais de meio milhão de pessoas morreria instantaneamente. Podemos
aprender a dominar estas bombas?, pergunta o especialista europeu
Dietrich Fischer, em um artigo exclusivo para o Terramérica.
NOVA YORK.- Se o mundo continuar em seu curso
atual, as bombas terroristas que sacudiram Londres, no dia 7 de
julho, devem ser consideradas como uma mera antecipação de catástrofes
piores. Enquanto as grandes potências insistirem em manter armas
nucleares, que, segundo elas, são necessárias para garantir a segurança,
não poderão impedir que outros países e organizações terroristas
adquiram - e usem - essas mesmas armas. A bomba atômica lançada
sobre Hiroshima matou mais de 200 mil pessoas. Mas as bombas nucleares
atuais são muito mais poderosas. Se um único artefato nuclear fosse
detonado em um carro estacionado, ou em um barco à vela no rio Tamisa,
o centro de Londres ficaria coberto por fumegantes escombros radioativos,
mais de um milhão de pessoas morreriam na hora e vários outros milhões
faleceriam lentamente por enfermidades causadas pela radioatividade.
A utilização de dois pesos e duas medidas, demonstrada por frases
do tipo “as armas nucleares são boas para nós, mas são ruins para
vocês”, é estúpida e em nada convence, já que implica acreditar
ingenuamente que a tecnologia para fabricar armas nucleares pode
ser mantida para sempre em segredo. É melhor aqueles que ainda crêem
no conto de fadas da “teoria da dissuasão” se darem conta de que
estamos na época dos atentados suicidas. A ameaça de uma represália
apocalíptica não serve para dissuadir uma pessoa convencida de que
irá diretamente para o céu depois de explodir junto com uma bomba.
Os governos que ordenam fazer chover toneladas de bombas sobre o
Iraque e Afeganistão não deveriam se surpreender com o fato de isso
inculcar idéias nas mentes de veementes imitadores.
Quais mudanças devemos fazer se quisermos que a humanidade sobreviva?
Em primeiro lugar, devemos deixar de crer que os problemas podem
ser resolvidos pela aplicação da força militar ofensiva, que só
incentiva os outros a pagarem na mesma moeda. Vigiar para deter
os criminosos e defender-se de um ataque externo é justificável,
mas o mesmo não se pode dizer de intervenções no estrangeiro. Em
segundo lugar, 37 anos depois da assinatura do Tratado de Não-Proliferação
Nuclear, é hora de as potências nucleares cumprirem seus compromissos
de desarmamento. Também precisamos de um mundo muito mais aberto
no qual todas as armas nucleares existentes possam ser destruídas
de maneira verificável e que a fabricação de novas não possa ser
ocultada. A Agência Nacional de Energia Atômica (AIEA) agora pode
inspecionar somente os países-membros que voluntariamente aceitem
sua supervisão. Tal “inspeção” necessita de sentido. A AIEA deve
ter o poder de inspecionar toda instalação nuclear suspeita em qualquer
parte do mundo, sem prévio aviso, pois de outro modo será impossível
medir a proliferação das armas nucleares.
Os governos que agora possuem armas nucleares se opõem a tais inspeções
argumentando que são “uma violação de sua soberania”. Também muitos
passageiros de avião protestaram inicialmente contra a revista em
sua bagagem em busca de armas, medida adotada depois de uma série
de seqüestros de aviões com fatais conseqüências. Agora, os passageiros
se dão conta de que tais inspeções servem para sua própria proteção.
Aqueles que nada têm a ocultar tampouco nada têm a temer. Cedo ou
tarde os governos chegarão à mesma conclusão no caso das armas nucleares.
A questão é saber se isso correrá antes ou depois que seja detonada
a primeira bomba nuclear.
Em terceiro lugar, precisamos enfrentar a causa fundamental do terrorismo:
os conflitos localizados não resolvidos. A solução pacífica nesses
casos é um ofício que pode ser ensinado e aprendido. Johan Galtung,
amplamente considerado como o fundador da especialidade de busca
da paz, foi capaz de ajudar a pôr fim a um conflito fronteiriço
entre Equador e Peru, pelo qual ambos combateram quatro guerras,
ao sugerir que os dois países fizessem do território em disputa
uma zona binacional administrada em conjunto na qual se criaria
um parque natural. Esta intervenção pacífica não custou quase nada
em comparação com uma operação militar para manutenção da paz.
Necessitamos de uma Organização das Nações Unidas para a Mediação,
com várias centenas de mediadores bem treinados capazes de ajudar
a impedir que os conflitos levem á violência. Esta é uma valiosa
intervenção em favor da sobrevivência humana de baixo custo se comparada
com o bilhão de dólares que o mundo gasta a cada ano para armar
milhões de soldados, o que só faz com que o mundo seja coletivamente
menos seguro. Se nos aferrarmos a modos de pensar obsoletos - como
os de acreditar que ameaçar os outros nos dá segurança - enfrentaremos
a extinção da espécie humana e desapareceremos como outras espécies
que fracassaram em sua adaptação a novas condições.
Livrar-se de todas as armas nucleares é uma perspectiva realista?
Certamente que é mais realista do que esperar até que sejam usadas.
Alguns afirmam que não podemos “desinventar” as armas nucleares
e que portanto teremos de conviver com elas tanto tempo quanto a
civilização existir. Mas ninguém “desinventou” tampouco o canibalismo,
simplesmente aprendemos a abominá-lo. E não poderemos aprender a
abominar a incineração de cidades inteiras com armas nucleares?
* O autor é diretor acadêmico do Centro
Universitário Europeu para Estudos da Paz (EPU), de Stadtschlaining,
Áustria. Direitos reservados: IPS.
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