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| Destaques Oito milhões e meio de pessoas em risco de fome Por Néfer Muñoz
A insegurança alimentar afeta os mais pobres habitantes do “corredor da seca” na América Central, alerta o Programa Mundial de Alimentos (PMA).
SAN JOSÉ, (Tierramérica).-
Cerca de 8,6 milhões de habitantes da América Central sofrem de insegurança alimentar e algum grau de fome, alerta um novo relatório divulgado em setembro pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU. Trata-se de pessoas pobres que habitam o “corredor da seca”, um cinturão geográfico em forma de ferradura que engloba a parte do sul da Guatemala, a área nordeste da Nicarágua e o sul de Honduras e de El Salvador, diz o documento do PMA. “A situação é muito crítica”, afirmou ao Terramérica Olga Moraga, a porta-voz do PMA para a América Latina e o Caribe, cuja sede fica em Manágua.
O estudo é resultado de uma pesquisa realizada em 122 comunidades rurais do corredor da seca por especialistas do PMA, funcionários governamentais e de outras agências das Nações Unidas. Os 8,6 milhões de centro-americanos (cerca de 24% do total da população da região de 36 milhões de habitantes) sofrem escassez de alimentos, devido, sobretudo, aos desastres naturais que golpearam o istmo na última década.
A sucessão de graves secas e inundações deixa cada vez mais vulneráveis as áreas agrícolas atingidas pela erosão. Em 1996 e 1997, houve uma forte seca na região, e o devastador furacão Mitch provocou inundações no ano seguinte. Em 1999, a seca voltou e desde então vem minando a economia de subsistência de milhares de famílias camponesas dedicadas a monoculturas de milho, feijão ou café.
“Desde a passagem do Mitch não levantamos a cabeça”, disse ao Terramérica o camponês Rubén Castellanos, de 47 anos, morador da aldeia El Barro, no departamento hondurenho de El Paraíso. Em muitos municípios vizinhos, as milpas (plantações de milho) e o feijão da segunda semeadura anual estão secando por falta de chuva, disse Castellanos. “Semeamos em setembro para colher em dezembro, mas estamos preocupados porque não chove”, acrescentou.
Como ele, outros 800 moradores de El Barro e de dezenas de comunidades próximas, padecem o ciclo perverso de falta de chuvas, perda de colheitas e fome. Mais de 85% das famílias no corredor da seca foram sucessivamente afetadas por desastres naturais nos últimos dez anos, o que causou impacto em seu trabalho, reduziu sua renda, provocou perda de animais e a migração, segundo o relatório do PMA.
Apenas 36% das famílias do corredor da seca são proprietárias e apenas 23% têm em dia seus documentos de propriedade, revela a pesquisa “Resultados da avaliação padronizada de alimentos e meios de vida sustentável para a América Central”, aplicada a 18 mil núcleos familiares. O estudo também revela que 70% das comunidades carecem de centros médicos, 37% dos adultos são analfabetos e 31% cursaram apenas três anos da escola primária. O grupo de famílias sem terra é o mais vulnerável, seguido do de meninos e meninas. Juntos estes grupos constituem 52,2% da população do “corredor da seca”.
* O autor é correspondente da IPS. |